Cidadão do Mundo


[quarta-feira, 08 de fevereiro de 2006]

Cartunices

Há dias que dura a polémica da bonecada: uma dúzia de cartunes – alguns até muito fraquitos – leva a manifestações, incêndios e mortes.
A minha primeira reacção foi nada escrever sobre o assunto, porque me pareceu que nada iria acrescentar à opinião óbvia – pensava eu – das gentes de um país livre.
Qual não é o meu espanto, quando a tal opinião não era tão óbvia quanto isso. Começo a ler por aí que as crenças são intocáveis, que é um desrespeito por outras culturas, que é arrogância da civilização ocidental e mais um chorrilho de discursos de idêntico teor. Até a posição do Governo se pauta por um baixar de calcinhas ao politicamente correcto, nas pessoas do chefe Sócrates e do ministro que já foi secretário-geral da assembleia das Nações Unidas. Pasme-se!

Mas o argumento que mais me irrita é o de que «nós atiramos-lhes cartunes e agora eles atiram-nos bombas». Ora, um cartune não mata ninguém e não pode ser por medo (muitas vezes mal disfarçado de bom-senso) que se deve calar o que quer que seja.
O bom-senso deveria ter imperado? Claro, como em quase tudo na vida. Podemos acusar de mau-senso os jornais que publicaram os bonecos? Talvez, mas isso não justifica, de modo algum, os acontecimentos daí decorrentes.
Os cartunes estão a ser usados como pretexto para instigar ao ódio? Estão, mas não passam dum pretexto. Se não existissem, outros subterfúgios se arranjariam. Alguém duvida?
Fico danado quando um punhado de dirigentes religiosos fanáticos e imbecis continua a lavagem cerebral implícita a qualquer religião – aqui é o ateu que disserta livremente sobra as crenças dos outros – de milhões que não sequer viram os cartunes nem sabem o que são, e o pessoal a achar que a culpa é duns gajos que resolveram exprimir a sua visão (ou uma das possíveis visões) sobre o fundamentalismo islâmico.
É um facto que houve manipulação política neste caso, mas isso não torna os desenhos piores nem melhores do que o que são. E até acontecimentos aparentemente inocentes podem ser usados como rastilho por filhos da puta especialistas em alimentar o barril de pólvora que é o ódio.

Uma das frases que me norteiam é de Voltaire Beatrice Hall(*): «Não concordo com o que dizes, mas defenderei até à morte o direito de o dizeres». Dentro deste espírito, verdadeira bandeira da liberdade de expressão, e, consequentemente, de Liberdade, não concebo a existência de tabus em questões de crítica, sátira ou humor.
E como Voltaire também disse que «uma discussão prolongada significa que ambas as partes estão erradas», não pretendo voltar ao assunto. Mas não sem antes deixar bem claro que a ideia de que deve haver limites quanto ao que se pode dizer ou escrever (ou desenhar), é uma das mais reaccionárias que conheço.


(*) A Sandra fez o favor de me elucidar acerca dum erro de décadas que afecta milhares de pessoas: a frase em questão não é da autoria de Voltaire, mas sim de Beatrice Hall ao referir-se a uma atitude dele, no livro "The Friends of Voltaire", 1906. Obrigado.

Publicado por Fernando @ 01:39 | TrackBack
Comentários

Meu caro! No essencial, concordo com esta análise, com duas ressalvas:
- Quando dizes "fico danado" cometes vários erros graves; primeiro porque ficas danado com o que não deves (com o pretexto); depois porque "ficares danado" é o que pretendem, de ti e de muitos outros cidadãos do Mundo, "os filhos da puta especialisatas em alimentar o ódio"... isto entre outros que me escuso de enumerar, até porque, para mim, são óbvios.
- Quando dizes: "Os cartumes não passam dum pretexto que, se nao existisse outro se arranjaria" cometes outro erro gravíssimo numa questão tão sensível. Ou seja, neste teu raciocínio, não adianta "a gente" se opor a estas manobras ou a outras, não adianta reivindicar igual direito à "liberdade de expressão" para as denúncias que abundam por aqui, na NET, mas que os OCS continuam a silenciar, etc. porque "eles" arranjam outras estratégias. Caramba! Mas ao menos tiveram que se dar ao trabalho de arranjar "outras". E depois por que "raio de carga de água" é que a "imaginação", os recursos, deles não se esgotam e os nossos sim? É falso! Nós até somos a maioria, temos muitos mais "recursos"; basta estarmos atentos, não darmos ouvidos e crédito apenas à propaganda perniciosa dos OCS e "encontraremos" esses recursos...
Esta argumentação que apresentas é, afinal, apenas uma forma de "baixar os braços" porque eles são mais fortes... Rejeito qualquer desculpa para justificar "baixar os braços". A vida é assim, atrás de cada problema vem outro, mas se baixamos os braços, vem outro muito pior, com certeza, até porque a estratégia resulta... Além disso, o que está aqui em causa não são os cartumes nem a reacção, mas a campanha intoxicadora que os OCS têm alimentado, com este pretexto. Se não se falasse do assunto, todos os dias e a todas as horas, ele já teria morrido... Depois, nessa onda, aparece todo o tipo de gente a dizer todo o tipo de disparates, que é para isso que existe "a campanha"...
Ou seja, este é um bom exemplo dum post "politicamente correcto". No essencial coloca os acontecimentos, e o respectivo barulho, no seu lugar, mas em cada questão concreta, sobressai o disparate...
Já agora transcrevo o comentário que deixei no Tá de Chuva: "Bom, tá bem! Por esse caminhar (onde cada "evento", previamente preparado e manipulado deve ser "analisado" como se fosse genuíno) não há como nos libertarmos das provocações e dos provocadores, uma vez que "eles" acabam por ter, sempre, razão e conseguir o que pretendem...
Quem publicou as caricaturas tinha todo o direito? Em nome de quê? Da liberdade de expressão (no Mundo ocidental) não é, com certeza, porque essa não existe.
Os muitos documentos e vídeos que analisam, de forma coerente, os acontecimentos do 11 de Setembro e não só, que continuam silenciados (e são em grande quantidade). Mas esta polémica das caricaturas é muito importante para a felicidade do Mundo e para garantir a paz...
Liberdade de expressão? Mas as "minhas" opiniões e propostas acerca destes assuntos e também da situação calamitosa em que o País se encontra, bem como acerca das respectivas soluções não são publicados nos meios de comunicação, apesar de o meu blog ser lido por jornalistas, juizes, deputados, etc. Liberdade de expressão?
Mas as "minhas" propostas de valoração da abstenção não chegam à população, por mais que eu insista no assunto. Liberdade de expressão? Onde? Se os cidadãos ocidentais nem sequer têm direito à verdade dos números dos resultados eleitorais?
Liberdade de expressão? Com sistemas eleitorais vigaristas e absurdos...
Nota: quando digo "minhas" é para significar que as ideias não têm dono e estas também não são só minhas. Só depois de amplamente discutidas e referendadas é que se pode saber a quem pertencem...
Um de nós anda a dormir... Sem dúvida! Serei eu, que penso pela minha cabeça, ou tu que dizes que "queres lá saber", como forma de fazer coro com toda a espécie de escumalha. Deves ser dos tais que pensas que "escumalha" anda com uma marca na testa. Olha-se para eles e vê-se logo... Não é preciso "a gente" avaliar bem o que dizem e fazem (ou talvez baste serem dirigents dum qualquer partido, para terem o monopólio da verdade e terem direito exclusivo a dizê-lo, em nome da "liberdade de expressão"). Já cansa tanto disparate, tanto "raciocínio" absurdo"...
Mas claro, apesar do "cansaço" também eu "defendo até ao fim o direito de qualquer um dizer as palermices que entender". Afinal não são as p+alermices que matam (embora, em casos como este possam ajudar muito...)

Desculpa que "abuse", assim, do "teu" espaço!

Afixado por: Biranta em fevereiro 10, 2006 02:03 PM

Só vim aqui de novo para anunciar o próximo jogo, a realizar no Estádio das Trevas, entre as equipas de Cristo e de Maomé.

Afixado por: Henrique em fevereiro 10, 2006 10:51 AM

Já citei a mesma frase, atribuindo-a, como todos, a Voltaire, também. Como até ando numa de Voltaire ultimamente, registo a correcção da Sandra.

Afixado por: Henrique em fevereiro 9, 2006 07:36 PM

Isto da liberdade de expressão tem que se lhe diga, não achas?!Bjs :-)

Afixado por: um ponto azul em fevereiro 9, 2006 11:49 AM

Sandra, obrigado pelo esclarecimento. Conheço a frase à uma porrada de anos e sempre que tropeço nela, vejo-a referida como sendo de Voltaire.

Enfim, um daqueles casos de deturpação inexplicável de expansão exponencial como o de «Play it again, Sam!», frase que nunca foi proferida em «Casablanca».

Afixado por: fernando em fevereiro 9, 2006 04:30 AM

Nem mais! Falaste e disseste! Abraço.

Afixado por: ognid em fevereiro 8, 2006 10:24 PM

Olá,

Só para te dizer duas coisas:

1) A frase que referes é também uma das que me norteiam;

2) Mas já agora aproveito para te esclarecer que apesar de meio mundo julgar que sim, ela não é de Voltaire, mas sim de Beatrice Hall ao referir-se metaforicamente a uma atitude de Voltaire. A frase no seu original em Inglês é:

"I disapprove of what you say, but I will defend to the death your right to say it."
S. G. Tallentyre (Evelyn Beatrice Hall),
"The Friends of Voltaire", 1906

Afixado por: Sandra Feliciano em fevereiro 8, 2006 08:53 PM