Cidadão do Mundo


[quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006]

Há dias assim

Há dias e dias.
Há dias em que olhamos para trás com a ternura num olho e o desencanto noutro.
Há dias em que não temos a certeza do que queremos.
Há dias em que temos a certeza do que não queremos.
Há dias em que o futuro passa por nós à velocidade da luz.
Há dias em que o passado se senta à nossa frente.
Há dias em que é simultaneamente cedo e tarde demais.
Há dias que, sendo iguais a tantos outros, são diferentes e únicos.
Há dias em que apanhamos uma gripe filha da puta.
Há dias fodidos.
Há dias em que se faz quarenta anos.

Publicado por Fernando @ 01:37 | Um Mundo de Cidadãos (27) | Referências (0)

[sábado, 11 de fevereiro de 2006]

Pensamento nocturno

Nenhuma caricatura ofende mais uma religião do que assassinar em seu nome.

Publicado por Fernando @ 06:15 | Um Mundo de Cidadãos (13) | Referências (1)

[quarta-feira, 08 de fevereiro de 2006]

Cartunices

Há dias que dura a polémica da bonecada: uma dúzia de cartunes – alguns até muito fraquitos – leva a manifestações, incêndios e mortes.
A minha primeira reacção foi nada escrever sobre o assunto, porque me pareceu que nada iria acrescentar à opinião óbvia – pensava eu – das gentes de um país livre.
Qual não é o meu espanto, quando a tal opinião não era tão óbvia quanto isso. Começo a ler por aí que as crenças são intocáveis, que é um desrespeito por outras culturas, que é arrogância da civilização ocidental e mais um chorrilho de discursos de idêntico teor. Até a posição do Governo se pauta por um baixar de calcinhas ao politicamente correcto, nas pessoas do chefe Sócrates e do ministro que já foi secretário-geral da assembleia das Nações Unidas. Pasme-se!

Mas o argumento que mais me irrita é o de que «nós atiramos-lhes cartunes e agora eles atiram-nos bombas». Ora, um cartune não mata ninguém e não pode ser por medo (muitas vezes mal disfarçado de bom-senso) que se deve calar o que quer que seja.
O bom-senso deveria ter imperado? Claro, como em quase tudo na vida. Podemos acusar de mau-senso os jornais que publicaram os bonecos? Talvez, mas isso não justifica, de modo algum, os acontecimentos daí decorrentes.
Os cartunes estão a ser usados como pretexto para instigar ao ódio? Estão, mas não passam dum pretexto. Se não existissem, outros subterfúgios se arranjariam. Alguém duvida?
Fico danado quando um punhado de dirigentes religiosos fanáticos e imbecis continua a lavagem cerebral implícita a qualquer religião – aqui é o ateu que disserta livremente sobra as crenças dos outros – de milhões que não sequer viram os cartunes nem sabem o que são, e o pessoal a achar que a culpa é duns gajos que resolveram exprimir a sua visão (ou uma das possíveis visões) sobre o fundamentalismo islâmico.
É um facto que houve manipulação política neste caso, mas isso não torna os desenhos piores nem melhores do que o que são. E até acontecimentos aparentemente inocentes podem ser usados como rastilho por filhos da puta especialistas em alimentar o barril de pólvora que é o ódio.

Uma das frases que me norteiam é de Voltaire Beatrice Hall(*): «Não concordo com o que dizes, mas defenderei até à morte o direito de o dizeres». Dentro deste espírito, verdadeira bandeira da liberdade de expressão, e, consequentemente, de Liberdade, não concebo a existência de tabus em questões de crítica, sátira ou humor.
E como Voltaire também disse que «uma discussão prolongada significa que ambas as partes estão erradas», não pretendo voltar ao assunto. Mas não sem antes deixar bem claro que a ideia de que deve haver limites quanto ao que se pode dizer ou escrever (ou desenhar), é uma das mais reaccionárias que conheço.


(*) A Sandra fez o favor de me elucidar acerca dum erro de décadas que afecta milhares de pessoas: a frase em questão não é da autoria de Voltaire, mas sim de Beatrice Hall ao referir-se a uma atitude dele, no livro "The Friends of Voltaire", 1906. Obrigado.

Publicado por Fernando @ 01:39 | Um Mundo de Cidadãos (7) | Referências (12)

[terça-feira, 07 de fevereiro de 2006]

Para que conste

Não sou dinamarquês, não sou maometano e não sou cartunista.

Publicado por Fernando @ 13:03 | Um Mundo de Cidadãos (0) | Referências (0)