Pela primeira vez vejo nevar em Lisboa.
Quem disse que aos quarenta já está tudo visto?
Engoliu tudo à primeira
por seis décimas apenas.
Tão desmedida a asneira
com medidas tão pequenas.
Alegre lá fui votar
exercendo o meu dever,
apesar de já prever
que não iria acertar.
(Ao jogo só tenho azar...)
E não é que na cadeira
se vai sentar altaneira
a figura que eu cá sei?
Desta vez, sem bolo-rei,
engoliu tudo à primeira.
(Há doutores analfabetos,
florestas incendiadas,
famílias desempregadas
dos avós até aos netos...
E os políticos quietos
de cabecinhas pequenas
a cagarem-se nas penas
do povo que os elegeu:
– Isto agora é tudo meu
por seis décimas apenas!)
Mais um se diz presidente
de todos os portugueses...
Cá para mim, se o for às vezes,
será para enganar a gente.
Eu continuo descrente,
já não vou na cavaqueira
desta cambada interesseira
que governa de improviso.
Talvez ganhemos juízo
tão desmedida a asneira...
País de brandos costumes
é uma frase tão batida,
quantas vezes proferida...
Tal qual faca de dois gumes,
de cada lado faz ferida.
Ó povo que mais ordenas
neste país de novenas,
pátria de sebastiões;
porque medes os colhões
com medidas tão pequenas?
Aquela clara madrugada que
viu lágrimas correrem no teu rosto
e alegre se fez triste como se
chovesse de repente em pleno agosto.
Ela só viu meus dedos nos teus dedos
meu nome no teu nome. E demorados
viu nossos olhos juntos nos segredos
que em silêncio dissemos separados.
A clara madrugada em que parti.
Só ela viu teu rosto olhando a estrada
por onde um automóvel se afastava.
E viu que a pátria estava toda em ti.
E ouviu dizer-me adeus: essa palavra
que fez tão triste a clara madrugada.
Manuel Alegre
No concurso da RTP1 O cofre que passou este sábado a pergunta era: Quem escreveu Inéditos e Dispersos publicado postumamente em 1910?
Entre as já habituais respostas tontas e anacrónicas – Torga, Aquilino, Pessoa, Almeida Negreiros (sic) – dos concorrentes, o apresentador Jorge Gabriel ia tentando ajudar:
– Autor de uma obra vastíssima... Estudei-o na escola... Escreveu imensos livros...
Ora, isto só demonstra, das duas uma: ou que Jorge Gabriel – apesar de tentar demonstrar o contrário – já esqueceu o que aprendeu, ou que os seus conceitos de obra vastíssima e imensos livros são, no mínimo, estranhos.
A resposta era Júlio Dinis e, correndo o risco de entupir o servidor, deixo aqui a lista da sua extensa obra:
Se não tivesse morrido com apenas 31 anos, talvez o Jorge Gabriel viesse a ter razão. Mas isso...
Nos últimos dias tenho assistido a depoimentos de figuras públicas elogiando o trabalho da SIC Notícias e a alguns excertos de reportagens consideradas relevantes desde o nascimento do canal informativo. Tudo isto no âmbito das comemorações do quinto aniversário.
Acontece que esta semana passaram imagens da reportagem do funeral de Amália Rodrigues, enquadradas nos tais cinco anos de informação.
Tudo estaria bem não fora o triste acontecimento ter-se dado há mais de seis anos. Há aqui qualquer coisa que não bate certo...
O sol, dia após dia, não queimava
o meu corpo soturno e sombrio.
E eu ambicionando um mar de lava
que me abrasasse o coração vazio...
A cada noite a lua minguava,
no meu quarto, crescente só o frio.
E eu ansiando a luz que fosse escrava
dum farol que orientasse o meu navio...
Foi então que te vi, de sete cores,
avivando o meu céu, serena e nua,
num arco que apagou todas as dores.
Encheste de clarões a minha rua,
cobriste a minha cama de mil flores,
tornaste-te meu sol e minha lua.
(11 de Novembro de 2004)
Fantasticamente ilustrado pelo Ognid (Catedral).