Como referi no post anterior, eu sou dos palermas que compram CDs e DVDs originais.
Acontece que ontem comprei o mais recente CD do Rui Veloso e não me apercebi do discreto (demasiado discreto) logótipo Copy Control.
O Copy Control, que pretende ser um meio de impedir a cópia digital e propagação pela Internet, tem algumas particularidades. Entre elas, destaca-se a de nem todos os leitores conseguirem ler o CD, principalmente os dos auto-rádios. O aviso está escrito em letras miudinhas (demasiado miudinhas) na contracapa.
Quer isto dizer que a EMI me vendeu um CD que não pode ser reproduzido num leitor escolhido por mim, logo, um produto de características abaixo de qualquer outro CD sem a referida tecnologia.
No entanto, a EMI está convencidíssima de que me vendeu um artigo fantástico e cobrou-me o já habitual e exorbitante preço associado a este tipo de produto.
A EMI pensa que está a prestar um grande serviço aos autores, compositores e intérpretes, quando, na verdade, é exactamente o contrário. Está a contribuir para que, no futuro, a venda dos seus CDs decresça e aumente a distribuição ilegal.
A EMI acha que com esta atitude impede a pirataria (estes tipos, ou são ingénuos ou estúpidos). Parece desconhecer que é a pirataria industrial e não as descargas através da Internet que lhe minam os lucros, e que qualquer um que se dedique a esse negócio paralelo tem meios de dar a volta a estas paneleirices enquanto o diabo esfrega um olho.
A EMI parte do princípio de que os seus clientes são criminosos e, como paga, ainda lhes vende um produto de baixa qualidade.
Pois a primeira coisa que fiz, foi abrir o vulgaríssimo Nero e, em menos de cinco minutos, tinha na mão um CD pirata que o meu auto-rádio reconhece.

Já não bastava a Sony-BMG com o XCP que tanta polémica deu e a Capitol Records com o seu vírus.
O meu finado leitor de DVDs custou-me, há alguns anos, 120 contos. Lia DVDs, CDs e SVCDs (estes, só se fossem originais...). Hoje consegue-se um bom leitor de DVDs por cerca de sessenta euros, enquanto um DVD anda por volta dos vinte. Quer isto dizer que se consegue comprar um leitor pelo preço de três DVDs ou quatro CDs. Ainda por cima, um leitor actual lê DVDs, CDs, SVCDs, MP3, DivX, PhotoCD, e até os há com rádio com RDS e o diabo a quatro.
Há uma lógica comercial nisto: facilitar a aquisição do aparelho para que se gaste na compra dos discos. É, no fundo, o mesmo princípio usado na venda de impressoras. Esta é quase dada, mas um conjunto de tinteiros custa os olhos da cara e, quantas vezes, também o olho do cu.
Temos então que o preço dos leitores se reduziu cerca de dez vezes, enquanto inovavam nas suas características, os CDs continuam na mesma e os DVDs reduziram cerca de um terço.
Acontece que, na verdade, o preço dos DVDs não diminuiu. O que aconteceu foi que passaram a oferecer-nos menos do que no início. É rara a caixa de DVD que abro que contenha mais do que o disco. Nem informações sobre o filme, nem ficha técnica, nem índice de cenas, nem nada. Só o filho da puta do disco, seja edição de coleccionador, seja edição especial, seja o raio que os parta.
Para quê então uma embalagem tão grande? Não podiam vendê-los em caixas de CD (das mais estreitas, já agora!) e pronto? Não! Um gajo tem de levar com uma embalagem gigantesca com um disquito lá dentro. Um desaproveitamento de espaço absolutamente estúpido...
Os palermas que, como eu, compram CDs e DVDs originais, fazem-no em grande parte devido à informação inclusa sobre a obra, que, no caso dos DVDs, passou a ser zero. Se nada mais houver do que o disco, sinto-me roubado e no direito de roubar também. Ladrão que rouba ladrão...
É por isso que começo a pensar seriamente se não será melhor piratear o filme e pronto. Com a grande vantagem de não ter de levar com a publicidade que agora começa a ser moda invadir os DVDs no início, e que nem dá para passar à frente. Aquela que diz que piratear filmes dá três anos de prisão...
Todos os dias paro em semáforos onde dou de caras com cartazes do candidato Cavaco. Nestes cartazes aparecem as frases “Portugal Maior”, “Sei que Portugal pode vencer” e “Portugal precisa de Si”.
Ora, esperar num semáforo é dos poucos momentos diários que temos para pensar. Vai daí, pus-me a matutar no sentido das frases e achei-as, no mínimo, estranhas. Senão vejamos:
“Portugal Maior”. Numa altura em que se apresentam projectos de milhões para encurtar distâncias com o TGV (CAV em português), o candidato Cavaco aparece manifestando o desejo público de que Portugal deve ser maior. Pessoalmente, acho que tristezas, quanto menores, melhor... E Portugal já é uma tristeza demasiado grande como está.
“Sei que Portugal pode vencer” é uma frase fantástica, assinada pelo candidato, que nada diz e diz tudo. Pode vencer o quê? O Mundial 2006? O Euro 2006 sub-21? A maratona nos próximos Jogos Olímpicos? O mundial de hóquei em patins?
Neste caso, “Prognósticos só no fim” seria uma frase igualmente adequada, não fora já ter sido registada pelo candidato Alegre para próxima frase-chave da sua campanha.
Mas se vencer for intransitivo, então o significado é “Sei que Portugal pode tornar-se (um) vencedor”, o que não abona a favor do candidato. É que o verbo poder, neste contexto, não tem a força da certeza necessária a um pretendente a tal cargo. Teria de ser “Sei que Portugal vai vencer” ou “Sei que Portugal vencerá”. Como está, a frase vale tanto como “Sei que o Benfica pode perder”, “Sei que o Liedson pode falhar o penálti” ou “Sei que Portugal pode empatar” – a escolha mais acertada, já que isto é um país de empatas. É só ver os debates...
Mais de acordo com Cavaco seriam “Nunca me engano e raramente tenho dúvidas”, “Deixem-me trabalhar”, “Não leio jornais”, “Boas (tchuu) Festas (ptchuu) a todos. O bolo-rei está (ptchuuu) óptimo” ou “Sei lá quantos cantos tem Os Lusíadas. O Camões também não sabia nada de finanças”

Mas a mais estranha é “Portugal precisa de Si”. Só após muito trabalhinho de neurónios entendi que a frase foi de sétima escolha.
Os criativos pensaram em “Portugal precisa de Dó”, mas acharam-na muito comiserativa; “Portugal precisa de Ré” seria, nitidamente, um apelo à marcha-atrás; “Portugal precisa de Mi” revelaria um egocentrismo brutal e de efeito contraproducente; “Portugal precisa de Fá” chamaria malcheirosos aos portugueses; “Portugal precisa de Sol” seria um disparate quando andam todos a dizer que o que faz falta é chuva; “Portugal precisa de Lá” soaria muito longínqua. Restou, portanto, “Portugal precisa de Si”, apesar de um criativo com alguns conhecimentos musicais ainda ter proposto no meio da confusão do brainstorming (tempestade cerebral em português) “Portugal precisa de Si bemol”.
Vamos lá ver se Portugal cai em si. E, já agora, afinadinho...