Um rio acordou a madrugada
que no meu peito andava há muito presa,
e num caudal de assombro e de braveza
arrebatou-me a alma enlameada.
Um rio transbordou a barricada
que me tornava forte na fraqueza,
desorientou as leis da Natureza
e eu deixei de ser água parada.
Agrilhoei-me à força dessas águas
que souberam lavar-me antigas mágoas
e acalentar-me enfim o corpo frio...
Mas é nessa corrente que me solto.
Sou, desde que te bebo, mar revolto,
e tu, que me sacias, o meu rio.
26 de Outubro de 2004
Soneto meu publicado em primeira mão (há uns meses) pela Jacky, que o ilustrou com esta imagem de Burt Miller.
Os universos de poesia do Juraan Vink serão desfeitos amanhã, cumprindo na morte o nome que ostentaram em vida.
Entretanto, o Juraan, transvestido em HMBF, começou já a ser atacado por uma insónia reparadora.
Adeus e bem-vindo.
– Como viveríamos sem advérbios de modo? Bem? Mal? Melhor? Pior?
– Exactamente...

Não é que eu tenha alguma coisa contra dobradinhas, mas hoje fui do Vitória de Setúbal desde pequenino, muito por culpa dum senhor chamado João Pereira, que não merecia de forma alguma levantar a Taça.
Tenho dito.
O fim do mês é a data limite para concorrer. Podeis ler aqui os mais de duzentos já enviados, incluindo os meus (ainda incógnitos).
E então, do que estais à espera?
(A segunda pessoa do plural é mesmo chique, não é?)
Há algum tempo soube que nos Estados Unidos da América, sempre que um cidadão estrangeiro requer a nacionalidade americana, tem de realizar uma prova sobre cultura, história e geografia do país.
Ontem, enquanto via o concurso Um Contra Todos, ocorreu-me que, se o mesmo tipo de teste fosse efectuado neste país aos cidadãos que já são portugueses, ficaríamos reduzidos – calculando por alto – a menos de um terço da população.
Talvez poucos mas bons fosse uma solução para o problema do défice.

A cada noite a lua minguava,
no meu quarto, crescente só o frio.
E eu ansiando a luz que fosse escrava
dum farol que orientasse o meu navio...
Foi então que te vi, de sete cores,
avivando o meu céu, serena e nua,
num arco que apagou todas as dores.
Encheste de clarões a minha rua,
cobriste a minha cama de mil flores,
tornaste-te meu sol e minha lua.
11 de Novembro de 2004
Publicado em primeira mão pela Jacky, que também escolheu a imagem.
Sempre que vou a um encontro blogosférico faço uns versitos a lembrar o evento. Desta vez cá vão umas singelas quadrinhas, inevitavelmente polvilhadas de algum surrealismo resultante de lhes enfiar (salvo seja!) com todos os intervenientes.
São dedicadas a todos os que participaram no crime, mas em especial aos autores morais.
A foto abaixo foi descaradamente roubada daqui. Reportagens fotográficas completas aqui e aqui.

| O evento aconteceu No ido fim-de-semana, Reunindo umas dezenas Na planície alentejana. O encontro desta gente, A Miúda da 4L, Em cada um que chegava Levaram Ideias Soltas, Neste encontro De olho vivo | De conversas indiscretas Juro que não houve míngua, Tornando o ponto de encontro Mais um Largo da Má Língua. Mesmo o mais intro.vertido Um Cidadão Jornalista E até foram estrangeiros: Veio depois o Almoço Houve convívio do bom | Sem 1 2 3 Experiência, Sem microfone a ajudar, Chegaram rsrsrsrs Do outro lado do mar. Houve ainda a Exposição Muitos Poemas de trazer – Que belo Modus vivendi! É já com muita saudade E agora que se acabou |
A maior vantagem dos novos televisores com amplos ecrãs é transformar qualquer tragédia real em belas imagens de tons cinematográficos.
Eis, finalmente, a solução para a tão desejada modernização da Igreja Católica Apostólica Romana. Agora já não há desculpas.
Tinha acabado de engolir o último pedaço de toucinho dum sublime cozido à portuguesa quando se lembrou de que era vegetariano. A carne é mesmo fraca...
O PSD já tem candidato à Câmara Municipal de Palmela.
Não digo mais nada porque vocês sabem de quem é que estou a falar.
Sempre que erguia a cabeça aquele olhar fitava-o fixamente. A fotografia dela estava ali há muitos anos em cima da sua secretária, e aqueles olhos brilhantes e vermelhos recordavam-lhe o tempo em que fora feliz e em que ainda não havia Photoshop.
Eu participo neste projecto que agrupa micro-contos com um máximo de cinquenta letras. Como cada micro-conto é escolhido aleatoriamente e há centenas deles de dezenas de autores, é garantido que cada visita será diferente.
Boa viagem.
Convívios blogosféricos
1.

Dia 21 de Maio em Beja. Organizado pelo nikonman e pela mad.
Mais pormenores aqui ou aqui.
Devido a afazeres profissionais ainda não posso confirmar a minha presença.

Devido a afazeres profissionais ainda não posso confirmar a minha presença.
Devido a afazeres profissionais posso confirmar já a minha não presença. Com muita pena minha.
Ia todos os dias à biblioteca e todos os dias era o primeiro a chegar. Pedia um livro de poesia e sentava-se de frente para a entrada, lendo e sonhando. Sempre que a porta se abria, descolava disfarçadamente os olhos dum poema e observava quem entrava. Andou nisto anos a fio, entre versos, rimas e sonhos, procurando a mulher da sua vida.
Um dia encontrou-a, mas perdeu-a poucos minutos depois. Na realidade, não teve prosa para ela.
Da tua silhueta em fortes traços,
que já fez dos meus sonhos sua presa,
resta uma névoa em contornos lassos
de cinza, de saudade e de incerteza.
(Tua sombra afastou-se dos meus passos,
já não partimos pão à mesma mesa...)
No longe dos teus olhos abro os braços
e abraço um novo olhar na Natureza.
Abarco a terra firme, o sol ardente,
as nuvens-sumaúma, o vento esguio,
a chuva cristalina, o mar profundo...
E é nesta orgia – pura e transcendente –
que retempero a força em que recrio
límpidos horizontes prò meu mundo.
Imagem do Ognid (Catedral) a quem agradeço mais uma parceria.
Acabara de sair da consulta à cartomante. As infalíveis cartas garantiram-lhe que viveria ainda muitos anos. Ao atravessar a passagem de nível, uma fracção de segundo antes de ser trucidada pelo comboio das onze e vinte e dois, só teve tempo de pensar como o tempo passa depressa.
Apesar de sempre ter gostado muito de contos, confesso que nunca me tinha interessado verdadeiramente por micro-contos. Já conhecia os (Novos) Contos do Gin Tónico do Mário-Henrique Leiria – ainda recordo o sotaque forçado do Mário Viegas no saudoso Palavras Dias, a dizer "Sou o Arcebispo de Beja" – mas, apesar de os achar brilhantes, o género não me dizia muito.
No entanto, isso mudou há bem pouco tempo, muito por culpa do Luís Ene e do seu livro. As conversas cibernéticas que temos mantido com regular irregularidade, também ajudaram a despertar-me atracção pelo género.
Entretanto abriu o concurso que mencionei na entrada anterior e resolvi escrever alguns para enviar. Foi um desastre. Quase sem dar por isso escrevi uns vinte de enfiada, e o pior é que se tornou viciante. Escrevia uma frase qualquer e uma história ganhava vida própria e ia-se completando quase sozinha.
Se bem que um micro-conto possa conter até duzentas palavras, confesso que me agradam mais as histórias mais curtas e com um toque inesperado ou irónico no final.
Ao investigar isto das pequenas histórias descobri até um projecto em que os micro-contos têm um máximo de cinquenta letras.
A partir de hoje irei publicando com a regularidade possível alguns dos micro-contos que for escrevendo, obviamente sem a intenção de empreitada a que o Luís Ene se propôs.
O primeiro é já... a seguir.
Já abriu o concurso de micro-contos no leituras com net.
Quem não faz ideia do que é um micro-conto, encontrará aqui alguns esclarecimentos.
Entretanto, os textos já começaram a chegar.