A RTP tinha programado o filme Tempestade para a noite de quinta-feira, mas por causa da tragédia que ensombra estes dias e da sensibilidade que as imagens podem causar, acabou por ser transmitido em sua substituição o filme Códigos de Guerra.
O filme substituído relata a história duma embarcação de pescadores que luta em alto mar contra uma gigantesca tempestade.
No filme transmitido, cuja história se desenrola durante as batalhas do Pacífico em plena II Guerra Mundial, há centenas de mortos com tiros de pistolas e metralhadoras, trespassados por baionetas e punhais, despedaçados por granadas, minas, morteiros e canhões.
Parece que, para a RTP, neste filme - apesar da bolinha da praxe no canto supeiror direito - as imagens não são tão passíveis de chocar os tele-espectadores mais sensíveis como as do outro filme, além de não lembrar nenhuma tragédia que ensombre os nossos dias.
Se a estupidez pagasse imposto, o défice da RTP seria obviamente muito maior.
Ou, se calhar, estúpidos somos todos nós.
O Pablo tinha pouco mais de doze anos quando morreu. Um cancro minava-lhe a boca há alguns meses e quase já não o deixava respirar. Já não brincava – logo ele! – e remetia-se para um canto só seu, numa agonia lenta e triste que os medicamentos já pouco debelavam.
Marcou-se a sua morte para ontem. A eutanásia – várias vezes adiada – libertou-o da dor que o sufocava e deixou mais pobre quem com ele conviveu.
O Pablo morreu e era apenas um cão. Um cão como eu... Como todos nós, afinal.
Adeus...
Como o Manuel, também eu sou um inculto e um perfeito selvagem. Não posso, por isso mesmo, deixar de agradecer esta sua preciosa informação para que, duma vez por todas, o meu relacionamento com outras pessoas conheça melhores dias.
Há oportunidades que não se podem perder. Obrigado.
Há um programa na SIC Notícias que se chama O dia seguinte.
Confesso que acho o nome genial. Além de se perceber imediatamente que trata de futebolices, é transmitido sempre no próprio dia e não no seguinte, conseguindo assim enganar os incautos como eu.
Ora, foi justamente devido à minha imprudência que há pouco assisti a parte da emissão de hoje (que eu pensava ser amanhã, claro) e pude ler uma mensagem de rodapé enviada por um telespectador, que rezava mais ou menos assim:
«Benfiquistas é preciso um 25 de Abril no nosso clube. Vamos já a eleições. O Benfica precisa de um Salazar.»
Vê-se claramente que, de política, o autor do comentário sabe-a toda. O que é meio caminho andado (ou mais) para perceber de bola e, portanto, participar no programa.
Confusos?! Também eu...
Os programas musicais que passam nas nossas televisões nesta quadra natalícia são fabulosos. Esta semana foi um fartote e, felizmente, parece que ainda não acabou.
Os transmitidos dos hospitais deveriam ser realizados todos os meses, pelo menos. Nada melhor para amenizar a infelicidade de estar doente que levar com o que de melhor se faz musicalmente neste país.
Deixo-vos com o fragmento de um dos maravilhosos poemas que tive a sorte de ouvir numa destas manifestações anuais de bom gosto:
Brinca comigo, Maria, brinca comigo,
Brinca comigo que eu sou um rapaz solteiro.
Brinca comigo, Maria, brinca comigo,
Deixa-me ser, deixa-me ser o teu bombeiro.
Brinca comigo, Maria, brinca comigo,
Quero em teu corpo o meu fogo apagar.
Brinca comigo, Maria, brinca comigo,
Que eu prometo a vida inteira te amar.
Boas Festas!
mudei de endereço
tão farto me sentia da minha pele
moro agora algures entre a que em tempos vesti
e a que alucinadamente procuro
O calor... É o calor que me levita
sobre o poço dum álgido passado.
Na sede de calor – mais que infinita –,
mergulho no teu corpo transpirado.
O calor... Só o calor é que me agita,
que me devolve a mim desidratado.
E suporto o calor como quem grita
palavras que não secam: saciado.
Bendito este calor, este sufoco!
Louvada seja a febre mais medonha
que me consuma até me deixar louco!
Não tem cura este fogo, meu amor...
Todo o meu corpo arde de vergonha
por te querer assim tão sem pudor.
18 de Outubro de 2004
Sempre me irritou a mania nacional dos inhos. Do cafézinho, do beijinho, do coitadinho...
Suponho que nenhum outro povo idolatrará com igual fervor esses melífluos sufixos. Sendo o inho um diminutivo, o cúmulo do ridículo é atingido quando se criam até diminutivos de diminutivos: não bastando "pequenino" ainda inventámos "pequenininho", por exemplo.
Ao contrário do que muitos pensarão, esse vício lusitano nada tem a ver com carinho – este sim, um inho decente! – ou outras manifestações de carácter afectuoso. Disfarçada sob o manto do afecto encontra-se a bem portuguesa arte de diminuir, de minimizar e, consequentemente, de ostentar superioridade.
Curiosamente, o inho é, na maior parte das vezes, utilizado em relação ao já considerado pequeno. Não é por acaso que se usa "pobrezinho" mas não "riquinho", que se diz "burrinho" mas não "inteligentinho", "casinha" mas não "vivendinha".
É um complexo de superioridade apenas perante o que já é "inferior"; o que, no fundo, não revela mais do que um estado de pequenez mental.
É até frequente referirmo-nos ao povo como o "povinho" (enquanto os brasileiros preferem o "povão"), o que demonstra inequivocamente, o quão pequenos nos achamos. E de tão pequenos nos acharmos, mais pequenos nos tornámos.
Há duas maneiras de ser grande. Uma é sê-lo, a outra é parecê-lo. Encolher tudo e todos é um dos métodos indispensáveis para quem escolhe a segunda opção.
Não passamos, afinal de contas, de um povinho com colhinhos.
Jorge Sampaio acabou de dar uma estalada sem mão a todos os que o criticaram por ter decidido, há quatro meses, aceitar um governo chefiado por Santana Lopes.
O Presidente conseguiu mostrar ao país que Santana Lopes não tem capacidade para governar o que quer que seja. Sampaio já sabia disso, claro, mas era preciso deixar o próprio Santana demonstrá-lo inequivocamente para que não se corresse o risco de ir a votos e ganhar. Afinal, papar eleições parece ser a sua maior especialidade - fora do seu próprio partido, claro. Lá dentro conhecem-no bem apesar de, muitas vezes, alguns fingirem que não.
Jorge Sampaio (o sabonete sem cheiro, como um amigo meu lhe chamava) demonstrou que ainda está aí para as curvas e que de parvo não tem nada ou, pelo menos, tem muito pouco.
Dirão alguns que estes quatro meses mais não foram de que tempo perdido. Não concordo. Serviram para que Santana mostrasse a todos que é um medíocre. Só por isso valeram a pena. Quem terá agora desculpa para votar no homem? Talvez apenas ele próprio e Luís Delgado.
Senhor Sabonete, muito obrigado e um grande bem-haja para si.