Um dia destes regresso a sério. Assim me venha o tempo. E a vontade.
(Hum... Há algo de erótico neste desabafo...)
Não gosto de Santana Lopes.
Não por ter posto Chopin a compôr concertos exclusivamente para si, nem por ter ressuscitado um escritor morto há um século. Não por ser um populista nato com uma ambição desmedida que não olha a meios para atingir os fins. Nada disso.
Do que não gosto em Santana Lopes é mesmo da sua falta de coerência. E se dúvidas houvesse sobre isso, a sua comunicação de ontem ao país, rapidamente as dissipou.
Passo a explicar:
Santana Lopes iniciou o seu discurso com o já famosíssimo "Portuguesas e Portugueses".
Não me preocupo muito com o facto de o actual Primeiro-Ministro não saber que "Portugueses" já inclui também as portuguesas. Outros incorrem sistematicamente nesta palermice. Nem me chateia a bacoquice de colocar o género feminino antes do masculino numa tentativa serôdia de se mostrar politicamente correcto. Até lhe agradeço o "Portugueses" com inicial maiúscula, apesar de ser bem visível que não nos trata em consonância com essa deferência.
O que me irrita mesmo é a sua incoerência. A bem da dita, algumas passagens da comunicação mereceriam outra redacção. A saber:
Em Portugal, as cidadãs e os cidadãos são livres; a Justiça é livre; o Parlamento é livre; todos somos livres no respeito da Lei.
Pelo contrário, foi esta maioria que trabalhou para uma nova entidade reguladora, e numa lei da imprensa com suficientes garantias para as e os profissionais, mas principalmente, para as cidadãs e os cidadãos que queiram fazer ouvir a sua voz.
Como, há uma década, fomos nós que acabámos com o monopólio do Estado na Comunicação Social, contra aquelas e aqueles que temiam meios de comunicação privados, abertos, livres.
Às palavras e aos discursos que se preocupam com a aparência das coisas, o Governo responde, com a concretização do seu objectivo: tornar Portugal um País mais rico e mais justo, fazendo com que as mais desfavorecidas e os mais desfavorecidos, as que menos têm e os que menos têm, vejam as suas condições de vida melhoradas.
Uma participação feita de muitos combates políticos, de resposta a desafios que muitas e muitos julgavam perdidos à partida, de muitas eleições e de muitas adversidades.
Leio diariamente os telegramas das nossas embaixadas que informam sobre as posições das e dos governantes dos países onde estão sediadas.
Sei, por isso, que uma qualquer descoordenação nas posições dos Órgãos de Soberania de Portugal é sempre avaliada por outras e por outros, não ajudando à imagem do País e à defesa dos interesses portugueses.
Mas também a estabilidade da coligação que apoia o Governo é indispensável para as medidas que se impõem e para a confiança de todas as portuguesas e de todos os portugueses, investidoras e investidores e trabalhadoras e trabalhadores.
Por essa estabilidade também respondo, num compromisso que é de todo o Governo; como é de todas e de todos e cada uma e cada um das e dos que integram a maioria que o apoia.
Vamos melhorar a vida das portuguesas e dos portugueses.
Esta medida abrangerá cerca de um milhão e meio de reformadas e de reformados e pensionistas.
O meu Governo não faz de conta que os problemas não existem.
Sabemos quais são e não desistiremos de os resolver, ao contrário das e dos que optaram pela facilidade do adiamento ou pela ausência da decisão.
Em apenas três meses de governação tomámos estas e tantas outras medidas. Sabendo que, como em tudo na vida, houve situações como a colocação das professora e dos professores que não correram como devido. Não se repetirá!
O compromisso com as e os combatentes começa a concretizar-se ainda este mês.
Propusemos um importante e fundamental Pacto de Justiça por forma a aprofundar os direitos das cidadãs e dos cidadãos e garantir uma aplicação do Direito de uma forma mais eficaz.
Uns dão ilusões. Nós preferimos encarar a realidade. Por isso sabemos qual o caminho que melhor defende os interesses das portuguesas e dos portugueses.
Mais, se o sistema fiscal ainda não é perfeito e algumas e alguns, com muitos rendimentos, ainda conseguem fugir ao fisco, será justo ir buscar tudo aos impostos das e dos que pagam sempre?
Com as medidas que tomamos, sairão beneficiadas e beneficiados as e os que menos têm, como sairá beneficiada a tão referida classe média. Para nós, as e os que mais podem devem pagar mais; as e os que não podem não devem pagar.
O senhor Presidente da República, há três meses, tomou a decisão de empossar este Governo querendo obviamente, como todas as portuguesas e todos os portugueses, que tenhamos sucesso, para bem de Portugal.
Conheço o País. Sei o que as portuguesas e os portugueses pensam. Todos as portuguesas e todos os portugueses, no continente como nas Regiões Autónomas. De cada vez que estou convosco, oiço o que me dizem. Sei a força que me dão.
Pois é. Perdoo-lhe tudo menos ser incorente. É por isso que não gosto dele.
Este país já foi uma caravela
bolinando à mercê do seu destino,
tripulada por sonhos de menino
cumpridos em caminhos de canela.
Já teve este país uma cancela
erguida do mais puro desatino,
tornando um povo – outrora peregrino –
refém da sua própria cidadela.
Mas tu, com loucas asas de gaivota,
traçaste a velhos fados nova rota,
fazendo desta terra mar fecundo.
Estranha forma de vida em que te deste...
Com a voz que Deus te deu tu devolveste
um novo Portugal a um velho mundo.
6 de Outubro de 2004
A Valéria Mendez desafia os blogonautas e outros cibernautas a passarem pelo seu blogue e deixarem um texto em prosa ou poesia sobre Amália.
Do que é que estão à espera? Olhem que até há prémio e tudo.
Morreu um homem que era uma lenda viva da televisão portuguesa e houve quem lhe tivesse prestado a última homenagem "porque ele era um grande benfiquista".
Puta que pariu o futebol...
Um céu plúmbeo cavalgava aquele fim de tarde argênteo e já havia luzes de néon bailando no seu vestido sulfúreo. Sentada num velho banco de ferro, contemplava a espuma do mar. Fiapos niquelados vogando ao sabor das ondas azotadas. Ele deambulava à beira-mar aspirando profundamente, a cada passo, o ar iodado. Os cabelos áureos, levemente oxigenados, esvoaçavam ao vento. Ela só deu por ele quando viu à sua frente um olhar azul cobalto fixando-a calmamente. O sol – que se punha por detrás daquele corpo bronzeado – dava-lhe uma aparência fantástica. Era uma titânica e imóvel estátua cingida por uma aura cúprica que ali estava diante de si. Assustou-se e soltou um grito mudo, quase um gemido. O mar adquiriu um tom levemente zincado, enquanto uma vagarosa lua platinada entrava em cena. Não falaram. Ele sentou-se a seu lado. Ela, trémula, puxou dum cigarro e ele dum fósforo. Deram-se lume. Aqueceram-se num fogo magnésico. Magnético e telúrico momento aquele em que o mercúrio subiu numa febre descontrolada em todos os termómetros, e em que um amor a cério, radioactivo, se calcificou neste universo hidrogenado para não mais se carbonizar.
Tenho andado arredado do blogue (começo a repetir-me, eu sei!), mas não me tem apetecido publicar. O blogue é meu e publico quando me apetecer. E, se é verdade que em tempos me senti obrigado a vir aqui mandar bitaites todos os dias, agora faço-o quando me apetece e sinto-me muito melhor.
Bem sei que posso sempre colocar uma imagem ou espetar com um poema qualquer para não dar a ideia de abandono. Ou então, escrever um post do género «Estou cansado. Vou comer bolachas.», mas nem isso me apetece.
Prefiro publicar uma imagem ou um poema quando me der na gana e não por pseudo-obrigação para com um público sedento de ler as parvoíces que por aqui vou debitando.