Cidadão do Mundo


[segunda-feira, 30 de agosto de 2004]

Abordagem ao aborto

Apesar de já ter comentado em vários blogues e de me ter envolvido em algumas discussões sobre a prática do aborto, nunca publiquei um post sobre isso. Chegou a hora. É longo, mas o assunto não é tão simples como muitos o querem fazer parecer.

1. Sou a favor da interrupção voluntária da gravidez em condições de higiene e segurança, sempre que a mulher o decidir (sozinha ou não).
Não escrevi aborto, não por questões eufemísticas, mas porque aborto é um conceito muito mais vasto. Todavia, este será o termo que utilizarei daqui em diante.
E, para que conste, não acho que um aborto não represente uma morte. Um aborto é sempre a morte do embrião ou do feto.
Por isso, não aceito que alguém seja a favor da prática do aborto por “dá cá aquela palha”. A decisão de abortar é extremamente dolorosa e complicada para a mulher que o pratica, e aceitar que o possa fazer de ânimo leve, isso é que não.

2. O abortar conscientemente não é uma invenção dos tempos modernos. Sempre existiu e sempre existirá. Por mais que se faça para a sua erradicação, esta jamais acontecerá. Todos sabemos disso e negá-lo não será intelectualmente honesto.
Também sempre existirão roubos e assassinatos, é certo, mas, ao contrário do aborto, essas não são práticas sociais toleradas pela esmagadora maioria das pessoas. Recorrer ao aborto, não só é implicitamente tolerado, como até é comum. Terrivelmente comum.
O que há a fazer, portanto, é que quem recorrer a esta derradeira opção o possa fazer em condições decentes.
Para alguns, esta posição fará de mim um monstro assassino. Para outros, um gajo moderno e evoluído. Sou o que sou e penso como penso, fruto da minha experiência de vida e da minha sensibilidade. E não aceito que me julguem pela minha posição nesta matéria, porque também eu nunca inferi o que quer que fosse acerca da inteligência ou da moral de quem pensa o oposto.
Mas há argumentos “do outro lado” que não posso aceitar.

3. Não aceito o argumento de “defesa da vida” de quem apoia a lei actual, que permite o aborto em casos de violação. Desse ponto de vista não há, na minha óptica, defesa possível para um aborto nessas situações.
É claro que obrigar uma mulher ou uma adolescente violada a levar até ao fim uma gravidez, é uma violência física e psicológica que poucos defenderão. E aqui o poucos é exclusivamente masculino (não creio ser possível que uma mulher possa ter essa posição, mas, quem já viu o Santana chegar a Primeiro-Ministro, já não se espanta com nada).
Compreendo melhor quem, argumentando a favor da vida, seja contra o aborto tout-court. Em casos de violação ou quaisquer outros em que não se tenha que optar entre as vidas da mulher e do feto. Aqui não há maneira de “defender a vida”.
Ainda para os que defendem a lei actual, pergunto: e as mulheres violadas ano após ano pelos companheiros, não terão direito a abortar?

4. Se a prática de aborto é um crime, quem o comete é criminoso. Seja a grávida, seja quem a ajuda a fazê-lo. Não há volta a dar ao assunto, e não há, então, motivo algum para que as mulheres que o praticam não sejam condenadas.
Mais uma vez compreendo melhor quem defende isto mesmo, do quem, mantendo a tese do crime, acha que as mulheres que o praticam devam ser ilibadas.
Ao isentar do cumprimento de pena a mulher que o comete, aceita-se tacitamente que o crime possa continuar impune.
Dir-me-ão que não é um método aceitável legalizar algo só porque na prática ninguém é condenado. Então, que sejam alvo de processo disciplinar os juizes responsáveis pelas absolvições, já que demostram não ter capacidade de cumprir a sua missão.
É claro que, se todas as mulheres que já abortaram conscientemente fossem presas, não haveria prisões que chegassem. Mas isso é outro assunto.

5. As complicações resultantes da prática de abortos clandestinos em Portugal, por parteiras, curiosas e até pela própria grávida – pondo em prática infalíveis receitas milenares –, são um problema de saúde pública. Há muito tempo que ouço dizer que são a segunda causa de morte materna em Portugal e primeira entre adolescentes.
Bem sei que os dados (neste, como em outros assuntos) são manipulados a bel-prazer das tendências, mas nunca ouvi alguém negar que esse problema de saúde existe.
Convém esclarecer que estas complicações afectam sobretudo as classes baixas, uma vez que as classes médias e altas abortam no estrangeiro em condições de higiene e segurança. Não lhes basta a desigualdade social de serem mulheres, ainda têm que levar com esta.

6. É verdade que há hoje muito mais conhecimentos em relação a planeamento familiar e ao uso de contraceptivos, apesar de não ser tanto quanto parece. Mas, o que fazer quando os contraceptivos falham?
Exijam a castidade, o sexo apenas para procriação e compreendê-los-ei. Não se pode argumentar contra a prática de aborto invocando a existência de métodos contraceptivos e obrigar um casal a ter um filho não planeado por falha dos mesmos.
Repare-se que, apesar da relativa raridade destes casos, eles existem e não podem ser escamoteados do ponto de vista da argumentação.
Mesmo a famigerada pílula do dia seguinte é por muitos considerada abortiva e imediatamente condenada.
É claro que sou totalmente a favor da educação sexual e de campanhas de informação sobre contraceptivos e planeamento familiar. E confesso que gostava de ver muitos dos que defendem o aborto preocuparem-se mais com este aspecto preventivo.

7. Os defensores do “não” escudam-se no resultado do referendo de 1998, apesar da fraca afluência (estava um excelente dia de praia) e de os referendos com menos de 50% de participação não serem vinculativos.
Quanto a mim, acho os referendos absurdos (excepto em casos pontuais, que não este).
As leis não são imutáveis. Uma lei criada hoje não implica a duração infinita da mesma, nem a impossibilidade da sua extinção ou alteração. Não me custa, por isso, aceitar que um Governo legisle sobre a matéria, o Parlamento aprove ou não e o Presidente ratifique ou não.
Está mesmo a ver-se que, se tivesse ganho o “sim” no referendo, seria agora a vez dos defensores do “não” se começarem a mexer. Um referendo deve ser um acto excepcional e não uma consulta periódica ao eleitorado, sob pena de o seu valor se banalizar.

8. É claro que também há argumentos absurdos a favor do “sim”. A defesa do aborto livre baseado no argumento da propriedade do corpo (na minha barriga mando eu) é uma imbecilidade chapada. Será que a mulher perde a propriedade do corpo após doze (ou qualquer outro número) semanas de gestação? Não será então a dona do seu corpo até aos nove meses, até ao fim da sua vida? Porquê aceitar, nesse caso, um limite para a prática do aborto?
Acrescento que, para mim, o número de semanas é-me indiferente. Deixo essa decisão para os especialistas.

9. O problema do aborto, ao contrário do que muitos pensam, não é um combate exclusivo entre Esquerda e Direita. Há muita gente de Direita (e até de Extrema-Direita) que é a favor de leis menos rígidas e vice-versa.
Parece-me que o problema da Direita é não conseguir libertar-se da alçada duma Igreja Católica completamente anacrónica e hipócrita, e o da Esquerda é que a ânsia de combater a Igreja e tudo o que ela significa, a leva a extremar posições.
Reparem que eu até compreendo que a Igreja seja contra a prática do aborto, mas, seguindo o mesmo raciocínio, não compreendo que a mesma Igreja defenda, em alguns casos, a pena de morte.
E isto leva a outra pergunta interessante. Porque é que a Esquerda, que é, regra geral, contra a pena de morte, se mostra tão permissiva em relação à prática do aborto e a Direita, geralmente mais aberta à pena de morte, defende tão acerrimamente o direito à vida na mesma questão?
Confesso que nunca consegui compreender, mas já desisti de o tentar há muito.

10. Acho o barco do aborto uma parvoíce mediática sem ponta por onde se lhe pegue. E até compreendo a posição do Governo ao proibir a sua entrada em território nacional. Não me parece que se deva deixar entrar na nossa casa alguém que se propõe vir cometer uma ilegalidade.
Gostava, no entanto, de saber se o barco decidisse entrar em águas territoriais e não recuasse, o que aconteceria. Seria travado à força, ao melhor estilo dos activistas pró-vida americanos, que põem bombas em clínicas onde se praticam abortos?

Publicado por Fernando @ 19:37 | Um Mundo de Cidadãos (13)

O barco

o barco
meu coração não aguenta
tanta tormenta, alegria
meu coração não contenta
o dia
o marco
meu coração
o porto
não

navegar é preciso
viver não é preciso

o barco
noite no teu tão bonito
sorriso solto perdido
horizonte, madrugada
o riso
o arco
da madrugada
o porto
nada

navegar é preciso
viver não é preciso

o barco
o automóvel brilhante
o trilho solto, o barulho
do meu dente em tua veia
o sangue
o charco
barulho lento
o porto
silêncio

navegar é preciso
viver não é preciso

Os Argonautas
Caetano Veloso

Publicado por Fernando @ 01:38 | Um Mundo de Cidadãos (0)

[domingo, 29 de agosto de 2004]

Mosquitos

Aquando do meu regresso, referi que trazia o pára-brisas decorado com mosquitos.
A propósito disso, há algo interessante que, provalvelmente, poucos saberão: é que os mosquitos não morrem quando chocam com o pára-brisas do carro.
Quando se dá o embate já estão mortos como resultado do mesmo fenómeno que mantém os aviões no ar.

Confusos? A explicação fica para daqui a um ou dois dias. Entretanto, quem souber pode desvendar o mistério.

Publicado por Fernando @ 15:34 | Um Mundo de Cidadãos (9)

Cenas da vida real (10)

Ontem. 19 h. Centro Comercial Vasco da Gama. Livraria Bertrand.
– Boa tarde. Têm o livro Memórias de Adriano?
– Não. Está esgotado.
– Sabe onde posso encontrá-lo?
– Não sei. Talvez aqui ao lado, no Continente.

Cinco minutos depois. Hipermercado Continente.
– Boa tarde. O senhor pertence a esta área dos livros?
– Sim.
– Procuro o livro Memórias de Adriano.
– Ah... Não. Desse escritor não temos esse livro.

Publicado por Fernando @ 14:58 | Um Mundo de Cidadãos (4)

[sexta-feira, 27 de agosto de 2004]

A cidade inclinada pelo peso duma torre

Publicado por Fernando @ 22:18 | Um Mundo de Cidadãos (7)

Aprenderam connosco

O tempo dedicado à música portuguesa nas rádios espanholas, francesas e italianas, é o mesmo que nas rádios portuguesas.
Afinal sempre lhes ensinámos alguma coisa.

Publicado por Fernando @ 05:07 | Um Mundo de Cidadãos (3)

Regresso

Estoirados após duas semanas de férias, eis-nos em casa.

O computador de bordo regista 6002 Km durante 78 horas e 6 minutos de condução, a uma média de 77 Km/h, e o carro traz uma colecção de mosquitos e afins de diversas nacionalidades a decorar o pára-brisas.

Alguns mistérios ficaram por desvendar após esta inesquecível viagem:
– Os inúmeros automóveis espatifados e/ou abandonados nas estradas do País Basco espanhol, devidamente sinalizados, e nas mais incríveis posições.
– A informação nas auto-estradas francesas Respectez la vie des hommes en jaune. Porque raio é que a vidas dos homens de amarelo merece mais respeito do que a dos de outras cores é um mistério.
– A total inépcia de franceses e espanhóis para tirarem um café decente. Só tomámos um café digno desse nome em Itália e em Portugal.
Talvez abrir uma escola de tirar cafés nesses países seja um bom negócio. À atenção do Marquês.

Publicado por Fernando @ 04:56 | Um Mundo de Cidadãos (11)

[terça-feira, 24 de agosto de 2004]

Mónaco

O Mónaco é, basicamente, uma pista de fórmula 1 construída à beira-mar, com uma marina e um palácio onde vive uma rapariga sui generis. Filha duma estrela de cinema mais boa atrás do que boa actriz e, provavelmente, boa a três, que, após a conversão em princesa, morreu num acidente de automóvel (aparentemente, uma fatalidade comum às princesas mediáticas), a moçoila tenta deseperadamente bater um recorde pertencente a Messalina há largos séculos.

Daí que eu tenha passeado por lá sempre de pé atrás. Não fosse a mulher apanhar-me na curva (do Mónaco, claro) e a minha fotografia aparecer escarrapachada nas revistas cor-de-rosa que por aí pululam, resultado do trabalho meticuloso de paparrazzi sem escrúpulos (passe o pleonasmo).

Publicado por Fernando @ 10:58 | Um Mundo de Cidadãos (3)

Ontem foi assim

Pequeno-almoço em Florença, almoço em Génova e jantar em Monte Carlo.

Provavelmente, um dia que não mais se repetirá.

Publicado por Fernando @ 10:42 | Um Mundo de Cidadãos (3)

[domingo, 22 de agosto de 2004]

Florença

Florença é uma chatice. Passa-se o tempo a tropeçar em museus, monumentos, arte e história.
Ele é o David, ele é a Uffizi, ele é o Duomo, ele é eu sei lá...

Tanta cultura também enjoa, porra.

Publicado por Fernando @ 16:13 | Um Mundo de Cidadãos (12)

[sábado, 21 de agosto de 2004]

Estive aqui

Detesto fotografias à japonesa. Um sorriso idiota em frente a um monumento qualquer só para dizer estive aqui!

Eu também estive aqui, ou nao teria fotografado o que fotografei, nao é? Nao vejo necessidade de estragar uma foto com figuras tristes e expressoes parvas.

Enfim, feitios...

Publicado por Fernando @ 11:16 | Um Mundo de Cidadãos (2)

Pisa

Pisa tem uma torre. Inclinada. Cada vez mais inclinada. Subimo-la. Fizemos peso do lado certo e do lado errado. Um dia ruirá. E a culpa nao será do Bin Laden.

Publicado por Fernando @ 11:01 | Um Mundo de Cidadãos (2)

[quinta-feira, 19 de agosto de 2004]

Cinecittà uma ova

Fomos à Cinecittà e nao nos deixaram entrar. Nao há visitas ao famoso centro da industria cinematográfica italiana.
Eu a sonhar em tocar os locais onde filmaram Fellini, Visconti, Rossellini, por onde andaram Sofia Loren, Claudia Cardinalle, Gina Lolobrigida, e nada...

O que valeu foi que o tempo foi aproveitado doutra maneira. uma visita à Galleria Borghese, a segunda maior colecçao de arte de Roma, logo a seguir à do Museu do Vaticano.
Ainda tenho os olhos cheios de Caravaggios, Veroneses, Ticianos, Berninis e Rafaéis.
E vi a Paolina Borghese Bonaparte de Antonio Canova, e que tao bem foi representada no cinema por essa excelente actriz que dá pelo nome de Milly d'Abbraccio (esta nao conheces tu).

Aproveito para esclarecer que os telefoni bianchi (telefones brancos) referidos alguns posts atrás, eram o nome genericamente dado aos filmes produzidos em Itália durante o fascismo, devido ao telefone branco que aparecia sempre no quarto da heroina.

Amanha partimos para Florença. Ciao.

Publicado por Fernando @ 19:02 | Um Mundo de Cidadãos (1)

[quarta-feira, 18 de agosto de 2004]

Conversa em Itália

– Prosciuto cotto piadina va bene tonno cippola uschita chiusa funghi tornare bolognese birra alla spina rucola bucatini grazie trippa della pizza?
(isto ou muito parecido, e debitado em menos de cinco segundos)

– Eu sei que nao parece mas sou estrangeiro e nao percebo ponta de corno do que estás para aí a dizer mas se nao te importares de falar mais devagar talvez eu perceba alguma coisa...
(também em menos de cinco segundos)

– Ah... Scusa!

– Tás desculpado, meu...

Publicado por Fernando @ 19:21 | Um Mundo de Cidadãos (3)

Sindroma de Stendhal

"Se um estrangeiro acabado de chegar a S. Pedro tentar conhecer tudo, acabará por ficar com uma enorme dor de cabeça e pouco depois terá tais dores e sentir-se-á tao enjoado que deixará de sentir qualquer prazer".

Foi assim que Stendhal descreveu no seu Diário os sintomas causados pelo excesso de cultura que Roma nos proporciona.

Como eu o compreendo...

Publicado por Fernando @ 19:07 | Um Mundo de Cidadãos (2)

Vaticano

Hoje foi totalmente dia de Vaticano. Vesti umas calças e lá entrei. Fomos à cupula da Basilica (elevador e mais 320 degraus que pareceram 3200) e à dita cuja.
Visitamos o Museu do Vaticano e a Capela Sistina, que foi uma das coisas mais espectaculares que vi até hoje. Ainda me doi o pescoço de tanto olhar para cima.
Depois de ver aquilo, posso morrer.


P.S. Henrique, tirei a tal foto apesar de ser proibido fotografar na Capela Sistina. Mostrei-a ao gajo que me veio avisar que era proibido e ele também gostou dela.
Afinal as regras fizeram-se para serem violadas, nao é?

Publicado por Fernando @ 18:52 | Um Mundo de Cidadãos (3)

[terça-feira, 17 de agosto de 2004]

Vaticano (quase)

Pois é. Fomos ao Vaticano, o mais pequeno e mais rico estado do mundo. Para entrar na Basilica é preciso passar por detectores de metais e tudo. Um espectaculo.
Mais à frente é que foi o pior. Nao me deixaram entrar porque eu ia de calçoes acima do joelho. O gajo da entrada nao me sabia dizer qual a diferença entre calçoes acima ou abaixo do joelho e respondeu-me num italiano fluente e veloz qualquer coisa que nao percebi bem, mas que creio ter sido do genero: eu sou apenas um pau-mandado e faço o que me mandam!
Ainda pensei em dizer-lhe que era amigo pessoal do Joao Paulo, mas reconsiderei. Para cunhas ja basta Portugal.

Formou-se rapidamente um grupo de gajos em calçoes que emprestavam calças uns aos outros e que se trocavam em frente à Basilica. Isto sim, é edificante.
Diga-se em abono da verdade que, num estado em que a lingua oficial é uma lingua morta, em que os dirigentes usam saias e o que o chefe diz é ininteligivel, estas cenas ridiculas nao me espantam mesmo nada.

Devido a todos estes contratempos, quando resolvi ir à Capela Sistina, ja estava fechada. Fica para amanha, antes da visita ao sitio onde se inventaram os telefoni bianchi (alguém sabe o que sao?).

Depois fui ao Coliseu. Está em muito mau estado, coitado. Os nossos Coliseus estao muito mais bem tratados, há que dizê-lo com frontalidade.
Ah, e o Russel Crowe nem sequer lá estava.

Publicado por Fernando @ 18:47 | Um Mundo de Cidadãos (3)

Roma

Chegamos ontem a tarde a Roma e ja estou desiludido com isto. Seguindo a maxima que ouço desde miudo, em Roma sê romano, procurei pelas famosas orgias romanas. Nao ha, pelo menos a vista desarmada.
Confesso que a principio ainda me animei. Entre San Marino e Catollica vi quatro sex-shops: Tam-Tam, Cactus, Le Caprice e Happy America. Ora, tanto aparato sexual entre duas terras com tao beatos nomes, era um bom prenuncio. Afinal, revelou-se tudo uma treta monumental.

Roma, a outrora capital do império que nos deu, entre outras coisas, a lingua, também tem mendigos. Vivem debaixo das pontes, mas em barracas de luxo.
Os transportes publicos e a sinalizaçao rodoviaria sao uma desgraça.
Em Roma ha muitos automoveis FIAT. Quase tantos como em Lisboa.

Chega por agora. Vamos até ao Vaticano ver a unica coisa interessante que a religiao catolica proporcionou ao mundo: obras de arte, pois claro.


P.S. Apesar de ter avisado o Papa da minha vinda, ele ainda nao demonstrou qualquer interesse em receber-me, pelo que, provalvelmente, nao nos veremos.
Mesmo que nos encontrassemos, calculo que nao compreenderia ponta de corno do que ele me dissesse. Independentemente da lingua.

Publicado por Fernando @ 11:46 | Um Mundo de Cidadãos (4)

[domingo, 15 de agosto de 2004]

Axiomas do viajante

Axioma do barulho
Se ouvirmos um grupo de pessoas em grande alarido, a falar alto e a rir às gargalhadas independentemente da hora, sao espanhois.

Axioma do camionista
Se nos depararmos com um comboio de camioes colados uns aos outros, que nao repeitam a distancia entre eles e nao dao hipotese de ultrapassagem, sao portugueses.

Excepçao ao axioma do camionista: o da frente pode nao ser.

Axioma da fila de espera
Se as pessoas entrarem à bruta num transporte publico sem respeitar a ordem de chegada à paragem, usarem a saida como entrada e nem se preocuparem em deixar sair primeiro quem o quer fazer, sao italianos.

Excepçao ao axioma da fila de espera: podem ser de qualquer nacionalidade, mas ja viajaram em Italia.

Publicado por Fernando @ 12:20 | Um Mundo de Cidadãos (3)

San Marino

Estamos em San Marino, a mais antiga republica da Europa, reconhecida até por Napoleao, que, para quem nao sabe, foi um gajo pequenino com uma pila ainda mais pequenina, e que, por causa disso quis dominar o mundo (Freud explicaria mais tarde o fenomeno). Deu-se mal com os portugueses e com os ingleses, coitado.

Decidimos ficar aqui um dia mais do que o previsto. San Marino apenas tem belas paisagens e muitos turistas. A meia duzia de autóctones sonha ser participante dos Jogos sem Fronteiras. Quem nao recorda a voz pausada e bem timbrada do grande Eladio Climaco (para quando uma homenagem nacional a este icone televisivo?), descrevendo:
– A concorrente de San Marino conseguiu agarrar com segurança as bolas do seu companheiro, apesar dos potentes jactos com que o concorrente portugues a esguichava.

Apesar de ser uma republica independente, aqui so ha italianos (pelo menos, o italiano é a lingua que se fala), e, tal como em Italia, todos os restaurantes se chamam pizzeria.

San Marino tem um Museu da Tortura que visitaremos mais logo, o que, acredito, nos fara sentir em casa.

Amanha seguiremos para Roma. Nao sei o caminho, mas nao devera haver qualquer problema, porque quem tem boca vai la. Quem nao tem, também se safa: parece que todos os caminhos la vao dar.

Publicado por Fernando @ 12:08 | Um Mundo de Cidadãos (3)

[sexta-feira, 13 de agosto de 2004]

Paradoxo do viajante

Nesta viagem, sempre que cheguei a uma encruzilhada e usei o instinto, escolhi o caminho errado. A logica diz-me que tenho que começar a optar pelo contrario do que o instinto me diz.
O problema é que o instinto diz-me para me guiar pela logica.
Estou fodido.

Publicado por Fernando @ 17:52 | Um Mundo de Cidadãos (4)

Veneza

Chegamos ontem a Veneza, provavelmente a cidade mais cara da Europa Ocidental (chiquerrimo, nao acham?).
Aqui fala-se italiano e a minha cabeça ainda raciocina em frances. O italiano e uma lingua gira: acaba tudo em ini, em eto, em uto, etc.
As bicas sao sempre italianas, o que nao deixa de ser curioso, e os gondoleiros nao cantam "La Donna é Mobile" nem "O Sole Mio".
A especialidade daqui é o prego. Toda a gente diz prego a torto e a direito.

O que mais me surpreendeu em França e Italia foi as crianças pequenas conseguirem falar frances e italiano, apesar de terem a mania de chamar fromage e formaggio a uma coisa que esta mesmo a ver-se que é queijo.

Em Veneza ha muita coisa para ver: montes de turistas que inundam a Praça de S. Marcos e as ruelas circundantes, e uma espécie de cacilheiros de formas e tamanhos varios, que navegam pelos canais.

Na Basilica de S. Marcos nao se pode entrar com alças com menos de dois centimetros de largura nem com calçoes acima do meio da coxa: "Afinal, isto é uma igreja" - dizem eles (em italiano, claro). Eu acho que Deus se farta de rir com todas estas parvoices em nome dele, mas isso é so a minha opiniao.

Amanha, o destino sera Roma com uma paragem provavel em San Marino.

Publicado por Fernando @ 17:45 | Um Mundo de Cidadãos (4)

[quinta-feira, 12 de agosto de 2004]

Côte d'azur

O Cidadao (isto de usar a terceira pessoa quando falamos de nos, e mesmo chique, nao e?) e a sua cara metade escrevem-vos de Nice.

No primeiro dia de viagem, so paramos para abastecer na mitica Tordesilhas onde, em tempos, o mundo foi em duas partes dividido (hoje, esta dividido em mais). Dormimos em Pau (le-se , Alex, nao comeces ja a delirar!), duzentos quilometros antes do previsto.

No segundo dia, passamos em Toulouse (nao vimos o Lautrec) e fomos almoçar a Carcassonne, uma bonita cidade medieval com um castelo estilo Pequenos Vagabundos (quem se lembra?). Se duvidas houvera sobre a medievalidade da cidade, os cartazes anunciando espectaculos taurinos, rapidamente as dissipariam.

Daqui a poucas horas, estaremos em Italia.
Mais novidades assim que possivel.

Publicado por Fernando @ 09:44 | Um Mundo de Cidadãos (11)

[terça-feira, 10 de agosto de 2004]

De partida

Estou de partida para aqui:

Mapas de Veneza

Espera-me uma longa viagem. Esta noite dormirei em Toulouse (mesmo ao lado de Lautrec, LOL).
Veremos se, pelo caminho, conseguirei fazer umas postas à la Gandra.

Volto daqui a duas semanas.

Publicado por Fernando @ 09:43 | Um Mundo de Cidadãos (12)

[segunda-feira, 09 de agosto de 2004]

Recordação deste fim-de-semana

Dedicada a um grupo de malucos

Publicado por Fernando @ 16:59 | Um Mundo de Cidadãos (7)

– Pois não...

Reportagem na SIC sobre o aproveitamento de energia solar na Amareleja, no chamado Alentejo profundo. Fala-se da terra árida, do sol escaldante, da falta de oportunidades de emprego para os jovens. Um deles é entrevistado. Tem dezasseis anos e quer sair dali. Está à espera que o chamem para um curso de hotelaria.
– Mas aqui não há hotéis... – replica a jornalista, que, por acaso, nem trabalha num jornal.

Publicado por Fernando @ 16:55 | Um Mundo de Cidadãos (4)

[quinta-feira, 05 de agosto de 2004]

Cenas da vida real (9)

No restaurante:
– Os senhores não podem sentar-se nessa mesa!
– Bem... Sentamo-nos numa destas. Pode ser?
– Nessas também não.
– Não me diga que estas mesas estão todas reservadas!...
– Não, não estão. Mas o colega responsável por elas está de férias.

Publicado por Fernando @ 04:27 | Um Mundo de Cidadãos (9)

Posta ao jantar

Na sexta-feira passada houve um jantar de bloguistas em Gaia, organizado pelo Altino.
Sempre que há um evento desta natureza, costumo alinhavar uns versitos sobre a coisa. Desta vez, e devido à preguiça que me consumiu nos últimos dias, ainda não o fiz. Nem o farei. Parece-me que, ou se faz logo, ou se perde a oportunidade.

Não quero, no entanto, deixar de referir que foi um prazer rever caras já conhecidas doutros encontros e conhecer algumas novas.
Para memória futura, esclareça-se que o prato de eleição foi posta à mirandesa (creio que houve apenas uma traição com esse excelente objecto fálico de criação judaica, a alheira), dando origem a um dos trocadalhos da noite: posta que é posta, é à mirandesa. Adianto que postas hoje? também me caiu no goto (juntamente com o branco fresquinho).
O repasto pariu ainda um novo blogue. Com tanta posta, outra coisa não seria de esperar.

A orgia terminou num bar com direito a posta via telemóvel, em directo e ao vivo, infelizmente sem a presença de alguns dos comensais. Nem todos têm estômago para bacanais depois de jantar.

Espero ansiosamente o próximo convívio. Sexo é comigo.


P.S. Devido ao adiantado da hora, apenas quatro links têm lógica. Não estou com paciência para corrigir os outros.

Publicado por Fernando @ 03:17 | Um Mundo de Cidadãos (6)

Já me apetece

Apesar de estar de férias, tenho andado atarefado com trabalho. Este paradoxo explica-se facilmente: apesar de ser empregado por conta doutrem, também faço uns biscates por conta própria.
Isso, mas também (e sobretudo) uma inexplicável vontade de não escrever ponta de corno, têm-me mantido afastado das bloguices. Vou deixando um comentário aqui, outro ali, e nada mais.

O que vale é que por ter um blogue, não sou obrigado a escrever. Faço-o quando quero e pronto.
E quem escreve quando quer, a mais não é obrigado.

Agora deu-me a vontade e toma lá!
(Isto dos blogues é como o sexo, com a vantagem de não terem dores de cabeça...)

Publicado por Fernando @ 02:40 | Um Mundo de Cidadãos (2)

[domingo, 01 de agosto de 2004]

Não me apetece e pronto

Não me apetece escrever...
Nem sobre Darfur, nem sobre os incêndios, nem sequer sobre o jantar de fim d'época (designação premonitória ou premeditada, Altino?).

Não me apetece escrever sobre o que quer que seja.
Mais logo... Amanhã... Talvez nunca... Mas agora não.

Estou cansado... Tolhido num palco minúsculo que não me deixa espaço para marcações.
Vou tomar um café e depois se verá. Talvez as tábuas se alarguem...

(E o calor... Sempre o maldito calor que, dizem, dilata os corpos...)

Publicado por Fernando @ 20:33 | Um Mundo de Cidadãos (13)