
Elaine Davidson, a mulher mais furada do mundo. Foto: Reuters
O que levará alguém a mutilar-se assim?
Há mais aqui.
Excelentíssimo senhor Rui, acuso a recepção da sua missiva.
Desde já adianto nunca me passou pela cabeça atingi-lo com o meu singelo post. É claro que sabia que o senhor não é o que aparenta, mas, honestamente, supunha que a sua verdadeira identidade fosse a de uma senhora quarentona, proveniente de boas famílias, de profissão liberal e provavelmente divorciada.
Agora que está desfeito o equívoco em que laborei todos estes meses, peço humildemente desculpa pelo meu fraco poder de análise e, ainda mais grave, por sempre o ter tratado por tu. A educação que recebi não concebe este tipo de proximidade entre pessoas de idade tão díspare, e garanto, que me recrimino profundamente por tal facto.
Mais adianto que também eu não sou o que aparento. Para que não restem dúvidas da minha boa vontade perante a sua tão esclarecedora atitude ao se desmascarar revelar tal como é, abro também o jogo. Ainda mais porque se permitiu tecer considerações sobre o que pensa ser a minha vida pessoal.
O meu nome não é Fernando (surpreendido?). Chamo-me Irina, nasci na Ucrânia, tenho 41 anos (embora não aparente mais de 40) e, apesar de arquitecta de formação, trabalho como manicura num salão em Ermesinde.
Imigrei para Portugal há sete anos e deixei os meus três filhos com os meus pais em Kiev. Já fiz de tudo por aqui. No início, servia à mesa e limpava retretes (não necessariamente por esta ordem). Depois trabalhei numa fábrica de enlatados em que comia o que sobrava e o dono me comia a mim (e mal). Vivi cinco anos sem documentos, explorada por patrões sem escrúpulos e ameaçada por mafias russas. Vivi tempos de puro terror, é verdade, mas não quero aborrecê-lo com as vicissitudes por que passei nessa época.
Agora estou um pouco melhor. Há cerca de dois anos conheci um senhor abastado que tinha um negócio de calçado no norte e que também era dono dum bar frequentado por indivíduos bem apetrechados (de dinheiro, que do resto...). Ele arranjou-me trabalho no tal antro bar, e pouco tempo demorei até travar conhecimento com um conhecido futebolista com ambições políticas, com o qual vivo até hoje. Bem, "vivo" é uma maneira de dizer. Ele vive com a mulher e com os filhos e montou-me este negócio de manicura. A mulher dele é minha cliente e muito simpática (e bem melhor que ele em certas coisas, mas isso agora não interessa nada). Como ela tem conhecimentos muito profundos a nível da classe política, ando a tentar usar as suas influências para que o Santana meta uma cunha ao Carmona e me entregue o projecto mal parado do Parque Mayer. É que o que eu gostava mesmo era de voltar a exercer arquitectura, e saio muito mais em conta que o meu colega Gehry. Porque de teatro percebo eu (daí o tal post que escrevi), e, com jeitinho, ainda têm direito a bónus ;)
Posto isto, e sem querer de forma alguma faltar-lhe ao respeito, quer parecer-me que os seus problemas de saúde, o seu stress de guerra (não combateu por mim, que eu estava longe) e a sua falta de tusa, nada são quando comparados com os meus problemas. Também eu tenho que dar o corpo ao manifesto, se quiser sobreviver neste país onde tudo se resolve às três pancadas e ninguém dá uma para a caixa (estranhas expressões estas que vocês usam).
Como vê, caro Rui, também me julgou mal. Afinal, ambos não passamos de duas almas massacradas pela puta da vida.
Desejo-lhe tudo de bom e, já agora, boas brincadeiras com as teias de aranha.
P.S. - A revelação das nossas verdadeiras identidades demonstra que, afinal, eu tinha razão quanto à tendência bloguista de criar personagens. Aproveito ainda para lançar um desafio à blogosfera. Tal como nós tivemos a coragem de expor publicamente quem na realidade somos, seria bom que outros bloguistas o fizessem. A bem da transparência e da verdade.
Outro P.S. - Apesar de eu escrever com muito menos erros do que a maioria dos licenciados deste país que me acolheu, peço desde já desculpa por qualquer eventual erro ortográfico. É que desde que li a sua carta, ainda não consegui parar de rir às gargalhadas... Ops, porra! Mijei-me toda...

Two, one two three four
Ev'rybody's talking about
Bagism, Shagism, Dragism, Madism, Ragism, Tagism
This-ism, that-ism, is-m, is-m, is-m.
All we are saying is give peace a chance
All we are saying is give peace a chance
C'mon
Ev'rybody's talking about Ministers,
Sinisters, Banisters and canisters
Bishops and Fishops and Rabbis and Pop eyes,
And bye bye, bye byes.
All we are saying is give peace a chance
All we are saying is give peace a chance
Let me tell you now
Ev'rybody's talking about
Revolution, evolution, masturbation,
flagellation, regulation, integrations,
meditations, United Nations,
Congratulations.
Ev'rybody's talking about
John and Yoko, Timmy Leary, Rosemary,
Tommy Smothers, Bobby Dylan, Tommy Cooper,
Derek Taylor, Norman Mailer,
Alan Ginsberg, Hare Krishna,
Hare, Hare Krishna
Give Peace A Chance
John Lennon And The Plastic Ono Band, 1969
Quando se ouve música má, tem-se o dever de a abafar com a conversa.
Oscar Wilde
Ao passar os olhos pelas primeiras páginas dos jornais de hoje na papelaria ao lado da minha casa, deparei-me com esta notícia na primeira página d'A Capital':
Benfica - Adeptos revoltados com ausência de surpresa
Bolas! Empataram com a melhor equipa do mundo. Querem maior surpresa que esta?
Não percebo.
Lembro-me de ter lido algures que a entidade reguladora dos conteúdos televisivos nos EUA introduziu há pouco tempo uma alteração que tolera o uso da expressão FUCK e seus derivados, desde que a sua utilização não tenha conotações sexuais.
Significa isto que passa a ser aceitável dizer FUCK YOU, FUCKING MOTHERFUCKER!, mas não FUCK ME!
Para os poucos versados nas subtis particularidades do vocábulo em questão, recomendo uma visita à sua mais completa, pedagógica e monty-pythoniana definição.
Duas da manhã. Todas as janelas estão abertas, os aparelhos de ventilação estão ligados no máximo e estão 32 graus dentro de casa.
Dormir está fora de questão, mas beber não. Vamos a isso!...
(E o país a arder...)
O Altino resolveu organizar um jantar de final d'época no Porto, na próxima sexta-feira, dia 30 de julho.
Inscrições abertas até à próxima quarta-feira no comida-eu-faço.
Afinal não estou entre os casos mais graves (ou mais agudos, que isto da língua portuguesa é mesmo tramado).
Para os que nunca ouviram a guitarra de Paredes (sim, parece que os há) e para os que nunca se cansam de a ouvir, recomendo a obra integral, O Mundo segundo Carlos Paredes, editada em 2002.
É um bocado cara, é verdade (cento e poucos euros), mas atendendo a que são oito CDs e que há ali música intemporal para estimular a inteligência de qualquer um, não deixa de ser um investimento de futuro.
Lembro-me de, durante os ensaios de teatro, o meu amigo Nabais, teu companheiro de prisão em Caxias, me ter contado inúmeras vezes que construíste um braço de guitarra com uma ripa e uns arames, e que passavas o tempo a sonhar um país nos sons que imaginavas enquanto exercitavas os dedos. Porque te proibiram a companhia da tua arma de doze cordas.
Lembro-me daquele concerto em que tu, chegado ao fim duma interpretação sublime, pediste humildemente desculpa porque se havia partido uma corda durante a execução do tema e tiveste que ir buscar as notas a outro lado.
Lembro-me da minha amiga Donna Short, (uma das minhas primeiras amizades via Internet, ainda do tempo em que não havia blogues), falecida em Setembro de 2000. De quando lhe enviei um disco teu (junto com um de Amália), que ela ouvia a altos berros atraindo os seus vizinhos em New Orleans que perguntavam, incrédulos pela beleza do que ouviam: meu Deus, o que é isto?
Lembro-me de lhe ter traduzido e explicado os poemas que Amália cantava – a mesma Amália que faria 84 anos no dia em que morreste –, porque ela queria saber mais sobre um país que lhe era totalmente desconhecido e que tinha parido tão comoventes artistas.
Lembro-me de ter recebido um email do filho a dar-me a notícia da sua morte, dizendo também que guardaria aqueles discos religiosamente.
Lembro-me do Marcel, um jovem alemão que estagiou comigo no estúdio numa altura em que se gravava fado e que ficou extasiado com o som da guitarra portuguesa. E o que havia eu de lhe oferecer quando viu chegada a hora de voltar à Alemanha?
Lembro-me de o Dr. Augusto Camacho, o primeiro a ser acompanhado por ti em gravações, me contar histórias deliciosas a teu respeito. De como as relações com o teu pai azedaram depois de teres gravado um arranjo seu que ele achava não tocares suficientemente bem. De como estudaste o Movimento Perpétuo durante dois anos antes de o gravares e de ninguém mais o conseguir tocar. (Parece que o Ricardo Rocha consegue, o que não me espanta nada. A tua arte tem seguidores, Carlos).
Lembro-me de um Natal em que a minha irmã me ofereceu um disco teu e de a minha mulher lhe ter perguntado se ela já o tinha. Lembro-me de, após a resposta negativa, a minha mulher lhe ter entregue um disco igual como presente (que havia sido comprado para mim).
Lembro-me de, há muitos anos, após uma semana sem ouvir falar português, ter ouvido uma gravação tua numa discoteca em Munique e de ter desatado a chorar sem saber porquê. Talvez por a beleza transbordante da tua música se tornar ainda mais infinita com a distância.
Lembro-me que há recantos da minha cidade que me levam inconscientemente a trautear as deliciosas melodias que inventaste.
Lembro-me de ter lido algures que um dia disseste: «Gosto demais da música para viver à custa dela».
Lembro-me de tanta coisa.
Um governo em que qualquer um serve para qualquer cargo, é um governo em que todos estão no lugar certo.
Vi em directo o final da etapa de ontem do Tour de France. Lance Armstrong cortou a meta em primeiro lugar após um arranque fabuloso, quando parecia que deixaria o seu oponente ganhar calmamente com uma boa dúzia de metros de vantagem.
A precisão com que desferiu o ataque (ganhou por escassos milímetros), a força que imprimiu e a determinação com que o fez, foram impressionantes.
A mesma força e determinação que teve quando, em 1996 lhe foi diagnosticado um cancro nos testículos com ramificações no cérebro, nos pulmões e no abdómen. Deram-lhe poucos anos de vida, mas, após duas operações e vários meses de quimioterapia, conseguiu vencer a doença.
Hoje é coordenador da Lance Armstrong Foundation, instituição de apoio na luta contra o cancro nos testículos, que lida principalmente com crianças.
Por que raio se chama um homem destes Armstrong, é um mistério. Devia chamar-se Verystrong, ou simplesmente, Strong.
Ontem, ao sair de casa pela manhã, tinha do lado de fora da porta uma folha A4 colada, com um texto intitulado "O CRISTO VIVO". O texto era chato, mas o mais importante estava reservado para o fundo da página: o AVISO:
Somos Os Missionários de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, e teríamos muito gosto em compartilhar com sua família algo que apreciamos muito! Por isso, vamos estar aqui na sua vizinhança no Julio 2004 dia 23 das 20h00s até às 22h00s . Para reservar uma hora específica, por favor ligar: XXX XXX XXX.
Confesso que levo ameaças destas muito a sério. Não deixarei, portanto, de fazer tudo o que estiver ao meu alcance para não me encontrar na minha vizinhaça no horário referido.
O Alex resolveu escrever um post sobre o Hino Nacional Finlandês.
Pois aqui o Cidadão descobriu os hinos de todos os países do mundo – como não podia deixar de ser – em formato midi, com a letra na língua original e a respectiva tradução para inglês.
As traduções conseguem por vezes ser tão hilariantes, que este sítio acaba por ser um dois em um: educativo e humorístico.
À laia de aperitivo, aqui vai um cheirinho de A Portuguesa, estilo lost in translation.
Heroes of the sea, noble race,
Valiant and immortal nation,
Now is the hour to raise up on high once more
Portugal's splendour.
From out of the mists of memory,
Oh Homeland, we hear the voices
Of your great forefathers
That shall lead you on to victory!
To arms, to arms
On land and sea!
To arms, to arms
To fight for our Homeland!
To march against the enemy guns!
conheço-te desde sempre,
de impregnares de luz os meus medos,
de calares as minhas mais tenebrosas confissões,
do teu lado negro que, quantas vezes, foi também o meu.
conheço-te desde sempre,
companheira cúmplice
de noites de infinita bebedeira,
de viver de cabeça perdida em ti
– ai este rapaz que não ganha juízo!
conheço-te desde sempre,
de me acenares nas noites de insónia,
de velares o meu sono,
de me amansares os pesadelos,
de te transcenderes em estrela,
de me reinventares as marés.
conheço-te desde sempre,
das criaturas fantásticas que se metamorfoseiam por ti
quando te enches,
de recortares as silhuetas de feiticeiras voando.
conheço-te desde sempre,
de há tempos infindos
girares em infatigáveis translações
– Tu é que sabias, Galileo Galilei –,
esperando paciente
que eu te tivesse só para mim.
há vinte anos
perdeste a virgindade.
possuíram-te e cumpriu-se o sonho
de todos os que sabem sonhar...
– Tu também sabias, Júlio Verne.
há vinte anos
perdeste a virgindade...
mas continuas de prata e pura
navegando as minhas utopias.
conheço-te desde sempre,
de me enlaçares à vida,
sempre nova...
Julho de 1989
| Representar não é a realidade – é mais cruel do que a realidade. É um acto de crueldade que o actor inflige a si mesmo. Jeanne Moreau Ninguém alguma vez escreveu ou pintou, esculpiu, modelou, construiu ou inventou senão para sair do inferno. |
Muita gente se tem interrogado – eu incluído – sobre o que levará alguém a criar e a manter um blogue. Que misteriosos desígnios levarão uma alma a perder o seu precioso tempo escrevinhando uns textos, procurando poemas e imagens para publicar, lutando com templates, perdendo-se nos meandros do HTML, e ainda ler outros blogues, comentá-los, citá-los, alimentar polémicas, eu sei lá?...
Porque, não nos iludamos, isto requer tempo e esforço. Algum tempo, muito tempo, algum esforço, muito esforço... Dependerá de cada um.
Após mais de dez meses nisto, creio já ter experiência mais do que suficiente para fazer esta análise. E creio que há duas razões principais, que explanarei mais adiante.
Neste espaço de tempo conheci (virtual, mas também pessoalmente) muita gente nova, fui alvo de intrigas(!!!), houve quem se chateasse comigo, quem me apelidasse de reaccionário, de esquerdalho (em que é que ficamos?), há quem me deteste; descobri que há quem leia regularmente o que escrevo (apesar de alguns poucas ou nenhumas vezes terem comentado), quem ache que sou um génio(!!!), quem me cite...
E aprendi que nos blogues, como na vida, as pessoas – eu também – não são exactamente o que aparentam ser, apesar de haver, obviamente, gradações neste afastamento da realidade.
A verdade é que, por mais que teimemos que o nosso blogue reflicta fielmente a nossa personalidade, pela característica pública de que se reveste este meio de comunicação – sim, é –, há nele, necessariamente, uma espécie de desfasamento da nossa realidade interior: ninguém se expõe abertamente a desconhecidos, mesmo acomodado sob a capa do anonimato.
Significa isto que somos todos, de alguma forma, actores neste palco blogosférico. Gostamos de representar uma personagem, que alguns crerão ser a sua, mas que, pelas razões atrás expostas, não o será fielmente.
O meu grande amigo Fernando Augusto – encenador, dramaturgo, poeta e uma mão cheia de outras coisas mais – numa das nossas inúmeras conversas que, inevitavelmente, entravam madrugada dentro, disse-me que um actor tem que ser, primeiro que tudo, vaidoso. Só depois vem o talento. É a vaidade que o faz expor-se diante de desconhecidos, que o faz querer mostrar-se, aparecer. Não o aparecer warholiano de 15 minutos, mas o estou aqui, existo e tenho algo importante para partilhar convosco.
Nunca me esqueci destas palavras – tanto mais interessantes porquanto o Fernando foi, de toda a gente que conheci, o que mais sabia de Teatro e dos que mais amava o Teatro.
Volto então à questão inicial: o que levará alguém a criar um blogue?
Sendo o bloguista um actor, a vaidade, antes de mais nada. A vaidade de aparecer por achar que tem algo a dizer, por acreditar que o deve compartilhar com outros e que isso é, de algum modo, importante para si e para quem o lê.
O tempo gasto, as insónias, todas as dificuldades a que se sujeita, fazem parte do processo de representar. São o acto de crueldade que o actor inflige a si mesmo, a que se referiu Jeanne Moreau e que torna a blogosfera num verdadeiro palco de não-realidade. Paradoxal? Será, mas é também de paradoxos que se alimenta a natureza humana.
É também claro que o bloguista usa muita da sua experiência pessoal e transpõe muitas das suas frustrações e alegrias para o papel que interpreta, ao jeito do mais puro sistema de Stanislavski.
Essa é também a razão de gostar de ser visitado e se preocupar com isso, por mais que afirme o contrário, ou disso se queira convencer (outra vez o actor, representando agora para si próprio). Porque o actor só se sente feliz e realizado quando tem público.
Mas, como se lhe não bastara a faceta de actor – já de si um acto de criação, embora muitas vezes inconsciente –, o bloguista é ainda um criador de outras artes. Essencialmente da escrita, mas não só. A própria organização do seu blogue, a escolha de imagens, de poemas ou de outros textos, acarreta consigo todo um aspecto estético de sensibilidade e gosto que não é despiciendo, e que poderá ser entendido à luz duma nova e cibernética forma de arte.
Dir-me-ão que há blogues que são um autêntico atentado ao bom-gosto, com textos de qualidade inexistente, etc. É verdade. E é aqui que entra o talento: uns têm-no, outros não.
Mas o esforço que preside ao seu acto, que não deixa de ser criativo, entronca inequivocamente na tentativa de sair do inferno, a que Antonin Artaud aludiu.
Os blogues inserem-se assim numa atitude escapista do inferno que nos circunda a cada passo que damos. O inferno que é o quotidiano. O inferno que são os outros. O inferno que somos nós. O inferno que é a vida... E esta é a segunda razão para criar um blogue.
Somos actores de nós próprios e, por inerência, somos vaidosos. E é através dessa capacidade teatral de metamorfose que procuramos o paraíso.
A verdade é que um blogue não é a vida, nem a vida é um blogue. A blogosfera não passa de mais um palco em que cada bloguista actua em busca da felicidade. É apenas mais um palco no teatro da vida.
É por isso que, enquanto houver vaidade e a humanidade sonhar ser feliz, os blogues não acabarão.
Continuem, pois, a procurar a felicidade e – como se diz no mundo do teatro – muita merda para todos!
Eu, Rosie, eu se falasse eu dir-te-ia
Que partout, everywhere, em toda a parte,
A vida égale, idêntica, the same,
É sempre um esforço inútil,
Um voo cego a nada.
Mas dancemos; dancemos
Já que temos
A valsa começada
E o Nada
Deve acabar-se também,
Como todas as coisas.
Tu pensas
Nas vantagens imensas
De um par
Que paga sem falar;
Eu, nauseado e grogue,
Eu penso, vê lá bem,
Em Arles e na orelha de Van Gogh...
E assim entre o que eu penso e o que tu sentes
A ponte que nos une – é estar ausentes.
Reinaldo Ferreira
(*) dedicado a um amigo pensado.
Nas notícias de rodapé do Jornal da Noite da SIC li há pouco a seguinte informação:
Imbuído do mesmo elevado espírito informativo que presidiu à elaboração desta notícia de interesse nacional, permito-me publicar – sim, que este blogue também tem a despretensiosa pretensão de se arrogar de serviço público – outra de igual interesse, ou, quiçá, superior:
Não têm nada que agradecer.
(...)
El poeta no es un "pequeño dios". No, no es un "pequeño dios". No está signado por un destino cabalístico superior al de quienes ejercen otros menesteres y oficios. A menudo expresé que el mejor poeta es el hombre que nos entrega el pan de cada día: el panadero más próximo, que no se cree dios. El cumple su majestuosa y humilde faena de amasar, meter al horno, dorar y entregar el pan de cada día, como una obligación comunitaria. Y si el poeta llega a alcanzar esa sencilla conciencia, podrá también la sencilla conciencia convertirse en parte de una colosal artesanía, de una construcción simple o complicada, que es la construcción de la sociedad, la transformación de las condiciones que rodean al hombre, la entrega de su mercadería: pan, verdad, vino, sueños.
(...)
En conclusión, debo decir a los hombres de buena voluntad, a los trabajadores, a los poetas que el entero porvenir fue expresado en esa frase de Rimbaud: sólo con una ardiente paciencia conquistaremos la espléndida ciudad que dará luz, justicia y dignidad a todos los hombres.
Así la poesía no habrá cantado en vano.
Os Mafiosos - Cena 13
Versão instrumental de «Chopin, Concerto para Violino op. 169» como trilha incidental. Geral na fazenda. Câmera aérea mostrando as plantações de laranjas. Corte para fachada da casa. Câmera se aproxima. Corte para a sala. Fujão Burroso e Paolo Puorta estão cagando. Sacana Lopo entra abruptamente no local, enraivecido.
- Como é que vamos conseguir enganar a malta?
- Caralho! No te interessa. Alôra no si pôde mas enganá, espezinhá, nem enrabá o povo. Num pode niente. Paolo Puorta, andiamo, vamo fazê mais merda.
- Desgraçado. Não fala assim com minha amante.
- Ele pode falar. Ele sabe que a decisão será a nosso favor!
Sacana Lopo deixa cair o plano do Túnel de suas mãos. Corte para fachada da casa. Câmera se afasta. Corte para cena aérea da plantação de laranjas. Sobe «Chopin, Concerto para Violino op. 169».
Morreu Maria de Lourdes Pintasilgo e ainda não vi o seu nome escrito correctamente em lado nenhum.
populista
do Lat. populu, povo
adj. 2 gén.,
relativo ao populismo;
que é amigo e defensor do povo;
s. 2 gén.,
pessoa amiga do povo;
adepto do populismo.
populismo
s. m.,
simpatia pelo povo;
política que se orienta pela obtenção do favor popular, através de medidas que agradem sobretudo às classes com menor poder económico.
– Pela primeira vez, um discurso de Jorge Sampaio foi inteligível.
– Santana Lopes começou por se abanar na Kapital, depois foi autarca da Capital, e agora goza de um aumento de capital (político, claro).
– Jorge Sampaio conseguiu enfurecer Ana Gomes. Obrigado, Sr. Presidente. Bem haja!
– A demissão de Ferro Rodrigues é perfeitamente compreensível. Afinal, nada do que o homem faz ou diz tem lógica.
– Jorge Sampaio diz que vai andar de olho no Governo. Eu também, e não precisarei de consultar ninguém para ter opinião sobre o dito cujo.
– Pinto da Costa apoiava Santana Lopes para Primeiro-Ministro. O homem este ano ganha tudo, porra!
– PORTAS é anagrama de PARTOS, PRATOS, TRAPOS, RAPTOS, TROPAS e RATO (falta o PS, eu sei).

Assisti na quinta-feira no CCB à estreia em Portugal – e única apresentação – das Gurrelieder de Schönberg. Peça complexa, de difícil execução e instrumentação gigantesca – duas orquestras, três grupos corais, cinco solistas e um narrador – as Gurrelieder, baseadas na obra homónima do escritor dinamarquês Jens Peter Jacobsen, têm nítida inspiração wagneriana, apesar de o atonalismo que viria a marcar a obra de Schönberg já se fazer anunciar.
Os interessados podem dar uma escutadela aqui.
De salientar a óptima prestação do contralto Mariana Pentcheva e do baixo-barítono Johann Verner Prein. Infelizmente, houve alguns contras numa noite que se esperava perfeita para apreciar uma obra magnífica: o coro ouvia-se em deficientes condições – principalmente os homens, já que as mulheres só se lhes juntam no final –, devido sobretudo à caixa de ar existente por cima (situação, aliás, atempadamente comunicada ao Maestro pelos técnicos do CCB, a que ele respondeu que «o coro é um complemento»!!!!). Pareceu-me também que, podendo a massa sonora de duas orquestras tornar-se brutal em certas passagens, não houve suficiente atenção a esse facto para tentar o equilíbrio com o coro e com os solistas. Talvez poucos ensaios de conjunto.
A respeito do Maestro Zoltan Peskó pouco há a dizer, a não ser que me impressionou pela regência, umas vezes incompreensível, outras desfasada do ambiente da obra.
Um destaque imerecido para um elemento da assistência: o ministro que nunca o chegou a ser. Nem compreendi o porquê da sua presença ali. O homem não tem, decididamente, nada a ver com aquilo.
As frases seguintes foram proferidas ontem à mesma hora pela mesma pessoa.
– O país não pode ter um Governo de dois em dois anos.
– A melhor solução para Portugal, a melhor solução para a democracia, a melhor solução institucional é a convocação de eleições antecipadas.
Eleições antecipadas não implicam um novo Governo? Ou eu é que já não percebo nada disto?
Durão Barroso ainda não é Presidente da Comissão Europeia, é apenas candidato e nada está garantido.
Ainda pode aparecer-lhe um grego pela frente.
Os Demónios de Alcácer-Quibir
O D. Sebastião foi para Alcácer-Quibir
de lança na mão a investir a investir
com o cavalo atulhado de livros de história
e guitarras de fado para cantar vitória
O D. Sebastião já tinha hipotecado
toda a nação por dez réis de mel coado
para comprar soldados lanças armaduras
para comprar o V das vitórias futuras
O D. Sebastião era um belo pedante
foi mandar vir para uma terra distante
pôs-se a discursar isto aqui é só meu
vamos lá trabalhar que quem manda sou eu
Mas o mouro é que conhecia o deserto
de trás para diante e de longe e de perto
o mouro é que sabia que o deserto queima e abrasa
o mouro é que jogava em casa
E o D. Sebastião levou tantas na pinha
que ao voltar cá encontrou a vizinha
espanhola sentada na cama deitada no trono
e o país mudado de dono
E o D. Sebastião acabou na moirama
um bebé chorão sem regaço nem mama
a beber a contar tim tim por tim tim
a explicar a morrer sim mas devagar
E apanhou tal dose do tal nevoeiro
que a tuberculose o mandou para o galheiro
fez-se um funeral com princesas e reis
e etcetera e tal viva Portugal
Sérgio Godinho
De pequenino se torce o destino (1976)

Eu, abaixo-assinado, declaro solenemente que cumprirei com lealdade as funções que me são confiadas.
Uma jornalista da televisão pública entrevistou um colega do marido no mesmo dia em que o seu antecessor apresentou a demissão a quem compete decidir se entrega ou não o destino do país ao entrevistado.
Se Portugal tivesse vencido o jogo de abertura, não teria perdido a final com a Grécia.
De imortais quinas aspergiu o ar
e entre castelos se arraigou ufano,
um país que entre tanto desengano
sonhava há muito ter o que sonhar.
E do feérico sol, do verde mar,
se armou um bravo corpo lusitano
que de um relvado fez novo oceano
e de uma bola a esfera armilar.
E foi um povo que ávido de glória
transformou dor e lágrimas enxutas
em rios de alegria colossal...
Não se olvide jamais esta vitória!
Que se erga esta bandeira noutras lutas
para que enfim se cumpra Portugal!
4 de Julho de 2004
Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na busca de um bem definitivo
Em que as coisas de Amor se eternizassem

Sophia de Mello Breyner Andresen
06-11-1919 – 02-07-2004
A única coisa que um actor deve ao seu público é não o aborrecer.

Marlon Brando
03-04-1924 – 01-07-2004
Era suposto ter ido à inspecção periódica com o meu carro em Junho (sim, que não sou rico para mudar de carro de dois em dois anos, e não tenho outro remédio senão gramar esta espécie de imposto automóvel). É claro que, como bom português, deixei isso para ontem, o último dia do mês, e, claro, entalei-me: todos os centros de inspecções a que me dirigi estavam a rebentar pelas costuras com várias horas de espera.
Hoje levantei-me às sete da manhã – para mim ainda nem sequer era muito cedo, já que essa é a hora a que me deito a maior parte das vezes – e lá me dirigi pela fresquinha à inspecção. Meia hora antes de abrir já havia mais de vinte retardatários como eu à minha frente.
Graças a essa instituição nacional que é deixar tudo para a última hora, pude conversar alegremente durante cerca de trinta minutos com perfeitos desconhecidos sobre a gloriosa jornada futebolística do dia anterior. Recordámos os golos, os falhanços – o Figo merecia ter marcado naquele remate ao barrote, pá! –, relembrámos jogadas, fizemos balanços, armámo-nos em treinadores e concluímos que afinal não há pai pà gente.
Viva Portugal!
A edição de ontem da revista Visão trazia como brinde um CD com o Hino Nacional.

Suponho que o todos nós da capa se refira a quem produziu, cantou, gravou e editou o CD, e não a todos os portugueses.
É que fazer coisas à pressa – e sei bem o que estou dizer – deu nesta versão sui generis da segunda quadra:
Entre as brumas da memória,
Ó Pátria, sente-se a voz
Dos teus igrégios avós,
Que hão-de guiar-te à vitória!
Pois é... Depressa e bem não há quem.