![]() Vincent (Starry, starry night) de Don McLean, composto a partir deste maravilhoso quadro de Vicent van Gogh. Starry, starry night. Now I understand what you tried to say to me, | Starry, starry night. Flaming flowers that brightly blaze, Swirling clouds in violet haze, Reflect in Vincent's eyes of China blue. Colors changing hue, morning field of amber grain, Weathered faces lined in pain, Are soothed beneath the artist's loving hand. Now I understand what you tried to say to me, For they could not love you, Starry, starry night. Now I think I know what you tried to say to me, |
O famoso crítico de arte odiava abstraccionismo e a exposição era justamente dum pintor convertido a essa corrente.
O crítico entrou na galeria e o jovem artista acompanhou-o com discrição, com o intuito de disfarçadamente ouvir as suas doutas opiniões.
O crítico ia olhando os quadros calmamente sem proferir qualquer palavra. A certa altura apontou um e disse:
– Este foi o último quadro que o artista pintou. – E continuou a visita.
O crítico havia visto todos os quadros e encontrava-se em amena cavaqueira com um pequeno grupo de outros vistantes. O artista ganhou coragem e aproximou-se:
– Desculpe. Eu sou o autor destes quadros e o senhor disse há pouco uma coisa que me impressionou. Que aquele quadro tinha sido o último que eu pintei...
– E então?
– Então, é verdade. Foi mesmo o último. Como é que conseguiu perceber isso?
– É muito simples, meu caro. Vê-se logo que foi ali que o senhor limpou os pincéis.
Aqui me tens de peito aberto e cheio
e de alma bem desperta e renascida
buscando a redenção imerecida...
Eu que fui tão altivo, abjecto e feio.
Sei que te peço aquilo em que não creio,
mas rogo-te com força desmedida:
– Se me guiares à terra prometida
dar-me-ei a ti, todo, sem receio.
Não quero mais ser menos do que meio
corpo dilacerado e suicida...
Acolhe-me no teu fecundo seio!
Aponta-me uma luz, uma saída!
Desfaz os nós que me atam neste enleio
para que saiba viver-te, ó minha vida!
23 de Maio de 2004
Conversa telefónica.
– Ó senhor João, não me disse que o ar condicionado já funcionava?
– E funciona. Ficou pronto ontem. Eu informei-o.
– Mas mesmo agora desataram a cair litros de água do ar condicionado. Molhei-me todo e os computadores que eu estava a instalar também ficaram encharcados.
– Sim, mas ficou pronto. Só falta ligar um tubo.
O familiar duma amiga minha processou, há uns anos, uma série de indivíduos que lhe deviam quantias avultadas.
O tribunal deliberou a seu favor e num dos casos ordenou que se procedesse à confiscação compulsiva de bens arrombando a porta do réu.
Uma vez que para isso é necessária a presença dum agente da autoridade, o advogado do queixoso, munido da ordem do tribunal e acompanhado por um carpinteiro (é necessário para que a porta fique no estado em que se encontrava antes), dirigiu-se esta semana a uma esquadra cerca das sete da manhã.
Após um passeio turístico de quatro horas a várias esquadras, lá conseguiu arranjar um polícia. Das que visitou, ninguém o quis acompanhar.
Numa delas até teve direito a uma pérola do comissário:
– Ó meu amigo, eu sou novo aqui. Nem faço ideia de como é que isso se faz.
Apesar da runião de alguns tudantes com chelentes resultados, Deus ainda não agiu.
Deve andar distraído, penso eu. Só assim se justifica ainda haver disto na Televisão de Portugal.
É pena...
A galp energia lançou uma colecção de 23 medalhas com jogadores de futebol a que chamou Colecção Oficial Selecção 2004. Por cada €15 de combustível oferecem uma misteriosa medalha devidamente embrulhada.
Qual não foi o meu espanto quando, ao abrir o pacotinho que me calhou em sorte, descobri que este patrocinador oficial do Euro 2004 resolveu convocar pelo menos um jogador totalmente desconhecido de Scolari.
É claro que, quando há uns meses, na apresentação da galp energia como patrocinador do Euro 2004, um dos responsáveis da empresa afirmou que gostaria de ver Portugal e o Brasil na final, eu percebi logo que futebol não é definitivamente a especialidade desta gente, o que, sublinhe-se, nem sequer é grave.
Grave, é não saberem geografia.
George Bush, presidente dos Estados Unidos e odiozinho de estimação do resto do mundo, falou ontem das suas ideias (!!!!!!!) para o futuro do Iraque, que incluíam a destruição do local do crime.
Pensei inicialmente que se referia ao país inteiro e perguntei-me o que faltaria destruir ainda. Só depois percebi que falava da prisão de Abul Raghib, o tristemente célebre local onde os soldados de Saddam e de Bush se divertiram a torturar a mesma gente.
Parece que, de todas as vezes que se referiu à prisão de Adu Grabih, nunca conseguiu acertar no nome, apesar do muito que treinou para não se enganar.
Não é de admirar. Porque raio é que um gajo que nem a própria língua sabe falar correctamente, conseguiria pronunciar algo tão estupidamente fácil como Agu Brahib?
Sou um fragmento de tudo o que sou,
Ínfima raiz duma árvore inteira,
Átomo de incerteza companheira
Dum golpe de asa que nunca voou.
Bebo os detritos que o medo soprou
Corroído por cósmica cegueira,
Fincado num chão de terra que cheira
À frágua mortiça que não vingou.
Penso que faço mas já está desfeito,
Sonho que acordo e já estou acordado,
Sinto que toco de tão insensível.
Se me dou todo num canto perfeito,
Devolvo-me um soneto inacabado,
21 de Maio de 2004
Agora que o Mário está melhor, já pode visitar este Jardim Zoológico muito especial.
Mesquita Machado, presidente da Câmara de Braga, comparou ontem o Museu Guggenheim de Bilbao com o Estádio Municipal, como justificação para o exorbitante custo deste.
Não posso estar mais em desacordo. O Estádio de Braga é muito mais bonito do que o arroto de Gehry. Não terá grande utilidade como atracção turística, mas que é mais bonito, disso não tenho dúvidas.


Informo as televisões portuguesas que no dia 1 de Dezembro de 1640 foi restaurada a independência deste país, após um valente pontapé no cu dos filipes.
É-me, portanto, perfeitamente indiferente cada passo, cada bocejo, cada peido dos envolvidos numa certa cerimónia bacoca no país vizinho: basicamente, um contrato entre um futuro rei e uma dadora de óvulos (obrigado pela definição, Rui).
Eu, que nem sou adepto de violências, um dia destes ainda me vejo obrigado a defenestrar as televisões cá de casa.
Desde muito cedo que Margarida – uma loira magra e franzina com a mania que era podre de boa – tinha um sonho. Um sonho que ciclicamente lhe preenchia o pequeno mas arrumado cérebro de que era orgulhosa proprietária, e que lhe percutia o seu amado neurónio até quase a enlouquecer: receber um Nobel da literatura.
Margarida não sabia escrever mas isso não a impediria de perseguir o seu sonho (é, aliás, para isso que os sonhos existem, para serem perseguidos – afirmaria um dia a uma revista cor-de-rosa).
Tanto porfiou que um dia conseguiu publicar. Inspirada pelo que não sabia, pelas coincidências, pelas almas ornitológicas e pelas estrelas populares, Margarida conseguiu – devidamente coadjuvada por meia-dúzia de amigos bem colocados nos meandros da comunicação social e do espectáculo – chamar a atenção dum povo sedento de literatura diferente.
O seu estilo leve e despreocupado, as suas personagens – principalmente as femininas – descomplexadas em relação à vida em geral e ao sexo em particular, guindaram-na aos píncaros da fama.
– Foda-se! Sou mesmo boa, caralho! – murmurou inúmeras vezes em inúmeras ocasiões...
A crítica literária referia-se a ela como uma escritora light e Margarida rejubilava. Ser considerada uma luz da moderna literatura portuguesa era mais um passo na longa caminhada rumo ao Nobel sonhado.
Mas – há sempre um mas nas histórias felizes – um belo dia a filha mais nova duma sua amiga explicou-lhe que light tinha mais do que um significado.
– Foda-se! Depois de já ter escrito a porra dum livro com o título em inglês, é que esta filha da puta de cinco anos me explica esta merda! Têm andado a gozar comigo, caralho! – pensou.
E foi para casa dormir sobre o assunto.
Na manhã seguinte, Margarida levantou-se mais bem disposta do que era costume. Farta de ser vexada e humilhada, começou calma e paulatinamente a magicar a sua vingança contra a intelectualidade de urinol que grassava no meio literário nacional.
Pensou, pensou, pensou... E já com o seu amado neurónio quase derretido pelo hercúleo esforço, teve subitamente uma ideia brilhante... Tão mais brilhante quanto gerada em tão pouco e escuro espaço: já que não gostavam dela, teriam que aturar um exército de clones seus. Decidiu criar a sua própria Escola de Escrita, mais um passo rumo ao sonho que perseguia.
– Foda-se! Sou mesmo boa, caralho! – murmurou uma vez mais...
E encheu o país e o mundo com milhares e milhares de Margaridas que floriram em todas as livrarias e hipermercados, e que selectivamente foram murchando os concorrentes até só restarem Margaridas. E finalmente ganhou o Nobel.
O seu discurso em Estocolmo é hoje um clássico. Apesar de ter começado com uma frase modesta: – Eu sei que não sei muito, mas o pouco que sei, sabe-me a muito. – foi o seu grito final que ficou para a História e que arrancou aplausos frenéticos a uma plateia em puro delírio. Palavras essas que são hoje parafraseadas pelos seus inúmeros admiradores e seguidores, nas mais variadas situações:
– Foda-se! Sou mesmo boa, caralho!
Assisti há pouco a um dos momentos mais reveladores da má fé da televisão que todos pagamos. Um rapaz de vinte e poucos anos respondia a perguntas de cultura(!!!) geral num concurso televisivo.
Não sabia quem tinha escrito «Mensagem» (apostou no Padre António Vieira porque tá a ver? Padre... Mensagem...) desconhecia o autor de «Insustentável Leveza do Ser», não conhecia o álbum «The Wall» dos Pink Floyd, a expressão «o canto do cisne» era-lhe totalmente desconhecida, não sabia que Napoleão era corso e pensava que «anuir» e «espairecer» eram sinónimos, entre outras de idêntica dificuldade.
Uma vez que não lhe fizeram as perguntas que certamente o fariam brilhar: «Em que clube joga Nuno Gomes?», «Em que canal de televisão passa o concurso "Um Contra Todos"?», «Quantas letras tem a palavra "Cu"?» ou «Quem é a prima do cunhado da vizinha do protagonista da novela "Morangos com Açucar"?», fica assim inequivocamente demonstrada a falta de seriedade da RTP na escolha das perguntas.
Eles só querem é troçar dos concorrentes, é o que é...
Aos católicos praticantes, aos evangelistas convictos, aos teólogos profissonais, às beatas rançosas, aos defensores da verdade histórica da paixão gibsoniana e aos ratos de sacristia em geral, recomenda-se o teste definitivo aos seus conhecimentos acerca da mais exacta das religiões.
No dia da votação do novo Código do Trabalho no Parlamento, os deputados fizeram gazeta e não houve quorum.
Uma vez que não tenho conhecimento da realização de qualquer futebolada, suponho que os excelentíssimos gazeteiros terão ido em devota peregrinação à Cova de Iria, pedir encarecidamente à Virgem e a todos os santinhos que o tacho não se lhes acabe tão depressa.
Espero, no entanto, que tenham já regressado, para que, no conforto dos seus lares, não percam a rara oportunidade de ver um dos melhores filmes humorísticos de sempre da cinematografia nacional: Fátima – o filme em que os actores se dobram a si próprios – e que neste preciso momento passa na televisão que todos pagamos. Um must.
Na terra baptizada com o nome da filha de Maomé (a mesma que deu origem aos xiitas), hoje é dia de peregrinação católica, devido à aparição da mãe dum judeu.
Pede-se encarecidamente a todos os cidadãos bloguistas o favor de guardarem em lugar seguro, e o mais rapidamente possível, cópias dos seus blogues.
Parece que, afinal, 30 anos de evolução não acabaram com certos vícios.
Notícia roubada de um dos melhores blogues que conheço.
Adenda em 12-05-2004 às 11:30h
Já não se pode confiar em ninguém, porra. Então não é que afinal parece que os jornalistas ainda têm mais queda para a difamação que os bloguistas?
De qualquer modo, é melhor precaverem-se. Já se percebeu que a ideia anda mesmo no ar.
Que triste e fatal fado o desta gente
que novos mundos deu ao velho mundo.
Brincou às caravelas, vagabundo,
e esvai-se agora de tristeza ingente.
Que povo este, que vive ainda ausente
nas terras que lavrou no mar profundo,
que perde anos de vida num segundo
e teima em não querer olhar em frente.
Nas contracurvas súbitas da História,
a vida segue sempre em linha recta
rasgando uma janela em cada muro.
As palavras cinzelam a memória
e eu parafraseio as do poeta:
– Saudades, tenho sim, mas do futuro.
08 de Maio de 2004, após uma deliciosa conversa com o outro lado do Atlântico
A propósito das expressões coloridas da Jacky, recordo uma história passada entre Cesário Verde e Dantas Baracho, jornalista que Cesário conhecera no mítico Martinho e que viria a tornar-se seu inimigo.
Cesário descia o Chiado quando o jornalista lhe gritou do outro lado da rua:
– Adeus ó Cesário Azul!
Ao que o poeta de Linda-a-Pastora retorquiu:
– Adeus ó troca-tintas!
As claques são um agrupamento de pessoas de elevada sensibilidade cujas as actividades principais consistem em beber litros de álcool, executar coreografias e entoar belos cânticos com letras de extremo bom gosto poético-erótico: fulano de ta-al, vai pó cará-lhooo! ou lá lá lá, lá lá lá, lá lá lá, filhos da pu-taaaa, lá lá lá, filhos da pu-taaaa, lá lá lá.
A estas actividades, alguns inteligentes de serviço aos microfones chamam – pomposamente – o espectáculo das claques. Concordo. As claques aliam a capacidade musical já referida, a efeitos visuais de grande qualidade (invadir o campo ou partir e atirar cadeiras para o relvado e à cabeça de quem calha) que mais não são que o paradigma da cultura da sociedade actual.
É eternecedor verificar o vigor com que as claques elogiam – com as suas gigantescas e coloridas faixas – os adeptos, dirigentes e jogadores de clubes adversários, e a ternura que expressam a malabaristas de very-lights e manobradores de armas brancas.
Louvo, por isso, os dirigentes dos clubes, já que apesar de lhes caber grande parte da responsabilidade por estes espectáculos mediáticos, a declinam em favor dos árbitros, num gesto de humildade que só lhes fica bem.
Louvo ainda as forças de segurança, pela magnânima atitude de refrearem os seus instintos autoritários e colaborarem activamente nesses eventos educativos que, definitivamente, transformaram o futebol num espectáculo para toda a família.
Peço, portanto, ao Excelentíssimo Senhor Presidente da República, Doutor Jorge Sampaio, o favor de ponderar afincadamente na atribuição da Ordem da Liberdade a tão ilustres representantes da sociedade portuguesa.
A diferença entre estar ou não dopado, pode resumir-se à existência dum papel numa gaveta do Conselho Nacional Anti-Dopagem.
Já recuperado do real encontro de sábado, eis-me de volta ao convívio virtual.
Este Cidadão tem, de vez em quando, a mania de escrever uns versos e aproveita estes encontros blogosféricos para exercitar essa actividade.
No primeiro encontro optou por escrever umas décimas e no segundo usou versos alexandrinos. Desta vez atirou-se aos versos decassilábicos (alguns heróicos, mas não todos), já que esta foi uma empreitada heróica, excelentemente organizada pelo magnífico Orlando.
Como já se esperava, devido ao elevado número de participantes foi difícil o contacto com toda a gente, mas outras oportunidades virão.
É claro que era complicado enfiar os nomes de todos os blogues num poema – se é que posso chamar-lhe assim – sem dar origem a versos algo surrealistas, mas o surrealismo é uma corrente que sempre me agradou.
Muito obrigado a todos pelo fabuloso dia e até à próxima.

Mas que puta de vida... ou nem tanto,
A paz na estrada - que infelizmente tarda -
Universos desfeitos com o encanto
Dum mentecapto que manda uma bojarda,
Angústias de um professor aturdido
Pelos loopings dum GandraTruck food-i-do.
Um cidadão do mundo em cada face,
100nada pra calar ou pra esconder.
O bisturi que corta com a classe
De quem é blete no que quer dizer.
Também houve desenhos animados
E jogos com lobices polvilhados.
E blogs de nome próprio, pois então:
O blog do Alex e o blog do duque,
Jack’s blog, diasdeblog até mais não.
Indústrias culturais sem qualquer truque
Que conseguem deixar qualquer um grogue.
Se for o seu caso, prima Desblog!
Depois do i vem sempre jotakapa,
Pelo que dizem – que para mim tanto faz.
Com pinga de sangue temperou-se a papa
E a Betânia comeu o que foi capaz.
Um mistério ficou sem solução:
Xupacabras, afinal foste ou não?
O rio Douro viu a primavera
Disfarçar-se num belo verão azul.
Este encontro, meus amigos, já era.
Vemo-nos no próximo... Mais a sul.