Aqui o Cidadão já começou a preparação física e psicológica para o repasto de amanhã. Não come há algumas horas e manter-se-á em jejum total até ao início das hostilidades, antecipando uma degustação lenta pela hercúlea tentativa de tentar chegar à fala com toda a multidão participante.
Até para um veterano destas andanças de almoços e jantares bloguistas, a tarefa que se avizinha impõe algum respeito.
Até amanhã.
Porque que não protestam os anti-tabagistas
Contra tanta beata? Mas por que razão
Ninguém das organizações ecologistas
Ergue a voz contra toda esta poluição?

Adoro uma boa quadra alexandrina...
(não é o caso, claro.)
Faz hoje 67 anos que, a pedido do General Franco, os alemães bombardearam Guernica, assassinando milhares de civis. Este acontecimento inspirou um dos mais famosos quadros de Picasso.
Obrigado ao Nuno pela lembrança.
Há uns anos, um amigo meu ao ver uma ilustração de um dos primeiros quadros de Picasso - anterior ao cubismo, creio até que anterior aos períodos rosa e azul -, comentou: «Olha! Afinal o gajo até sabia pintar...»
Já não me lembro do que lhe respondi, mas a melhor resposta já havia sido dada por Picasso il-même, alguns anos antes:
«O facto de por um longo período o cubismo não ter sido entendido e de ainda hoje haver pessoas que nada vêem nele não quer dizer nada. Eu não sei ler inglês e para mim um livro em inglês é composto de páginas em branco. Isso não significa no entanto que a língua inglesa não exista. E por que razão deveria eu dar a culpa a outro que não a mim próprio por não entender alguma coisa sobre a qual nada sei?»
É óbvio que Picasso desconhecia o passatempo tipicamente português de se mandar uns bitaites mesmo (e principalmente) sobre o que se desconhece.
![]() | Sempre achei o monumento lisboeta à Revolução dos Cravos erigido no Parque Eduardo VII e da autoria de João Cutileiro, a mais fiel imagem do acontecimento: o 25 de Abril está murcho e só com talas se mantém de pé. |
Ontem não me apeteceu escrever sobre o 25 de Abril. O blogue é meu e escrevo sobre o que eu quiser e quando eu quiser. E isto, meus amigos, também é Liberdade.
Aos cravos
Da madrugada distante
Recordo a agitação das vozes
A excitação dos gestos
E a incerteza dos rumores
Que falavam de cravos
E até dos cravos só já resta
A memória do vermelho
Escrito em Abril de 1984.
Há blogues que se saboreiam lentamente e blogues que são engolidos dum trago.
Há blogues frios e blogues quentes, aconchegantes.
Há blogues doces, blogues amargos e blogues ácidos.
Há blogues claros como água e blogues insípdos, incolores e inodoros como água (pelo menos a água teórica, que a real parece ser exactamente o oposto).
Há blogues insonsos e blogues bem temperados e há blogues apimentados e picantes.
Há blogues intragáveis apesar da boa apresentação, e blogues de péssimo aspecto, mas de sabor inigualável.
Há bons e maus blogues e bloguistas, como há bons e maus cozinhados e cozinheiros.
Vem esta conversa de culinária a propósito de este blogue se encontrar em lume brando. E o lume brando é o grande segredo da cozinha portuguesa.
Bom apetite!
A boa notícia é que está a ser transmitida pela TVI uma bela adaptação para televisão de Dom Quixote de la Mancha, com um óptimo elenco: John Litgow, Bob Hoskins, Isabella Rosselini...
A má notícia é que está a ser transmitida neste momento, às cinco da manhã (??!!!).
Já agora, desde quando é que o famosíssimo Cavaleiro da Triste Figura passou a Cavaleiro de Semblante Lastimoso?
Estas traduções...
No ano de 1582 foi estabelecido por Bula Papal o Calendário Gregoriano, pelo qual ainda hoje nos regulamos. Nele se estipula, entre outros, o método de determinar o dia da Páscoa:
A Páscoa ocorre no primeiro domingo após a primeira lua cheia que se verificar a partir do equinócio vernal.
Todos os feriados eclesiásticos são calculados em função da Páscoa. A sexta-feira da Paixão é a que antecede o domingo de Páscoa. A terça-feira de Carnaval ocorre 47 dias antes da Páscoa e a quinta-feira do Corpo de Cristo 60 dias após a Páscoa. O domingo de Ramos é o que antecede o domingo de Páscoa, a Quaresma são os 40 dias entre o Carnaval e o domingo de Ramos, a quinta-feira da Ascensão ocorre 39 dias após a Páscoa e o domingo de Pentecostes vem 10 dias depois da Ascensão.
Existem várias fórmulas obedecendo aos ditames da Igreja, mas que já não estão rigorosamente afinadas com a astronomia quanto às fases da Lua. A Igreja assumiu que o equinócio de Primavera no hemisfério norte ocorre sempre a 21 de Março, quando na verdade pode acontecer um ou dois dias antes.
O astrónomo e matemático francês Jean Baptiste Delambre (1749-1822) desenvolveu duas fórmulas para calcular o dia da Páscoa (uma para o calendário Juliano e outra para o Gregoriano). A Páscoa será no dia G + 1 do mês F A Páscoa será no dia Q + 1 do mês P
Antes de 1583 (Calendário Juliano) A partir de 1583 (Calendário Gregoriano) A = resto de (Ano ÷ 4)
B = resto de (Ano ÷ 7)
C = resto de (Ano ÷ 19)
D = resto de [(19 x C + 15) ÷ 30]
E = resto de [(2 x A + 4 x B - D + 34) ÷ 7]
F = inteiro de [(D + E + 114) ÷ 31]
G = resto de [(D + E + 114) ÷ 31]
A = resto de (Ano ÷ 19)
B = inteiro de (Ano ÷ 100)
C = resto de (Ano ÷ 100)
D = inteiro de (B ÷ 4)
E = resto de (B ÷ 4)
F = inteiro de [(B + 8) ÷ 25]
G = inteiro de [(B - F + 1) ÷ 3]
H = resto de [(19 x A + B - D - G + 15) ÷ 30]
I = inteiro de (C ÷ 4)
K = resto de (C ÷ 4)
L = resto de [(32 + 2 x E + 2 x I - H - K) ÷ 7]
M = inteiro de [(A + 11 x H + 22 x L) ÷ 451]
P = inteiro de [(H + L – 7 x M + 114) ÷ 31]
Q = resto de [(H + L – 7 x M + 114) ÷ 31]
Houve outros astrónomos e matemáticos que se dedicaram a desenvolver algoritmos para calcular o dia da Páscoa. O mais simples de todos foi criado por Gauss (1777-1855).
A = resto de (Ano ÷ 19)
B = resto de (Ano ÷ 4)
C = resto de (Ano ÷ 7)
D = resto de [(19 x A + X) ÷ 30]
E = resto de [(2 x B + 4 x C + 6 x D + Y) ÷ 7]
Se (D + E) > 9 então Dia = (D + E - 9) e Mês = Abril, senão Dia = (D + E + 22) e Mês = Março.
Os valores X e Y variam conforme o ano a calcular e definem-se pela seguinte tabela:
| Anos | X | Y | |
| 1582 | 1599 | 22 | 2 |
| 1600 | 1699 | 22 | 2 |
| 1700 | 1799 | 23 | 3 |
| 1800 | 1899 | 24 | 4 |
| 1900 | 1999 | 24 | 5 |
| 2000 | 2099 | 24 | 5 |
| 2100 | 2199 | 24 | 6 |
| 2200 | 2299 | 25 | 7 |
Há dois casos particulares que ocorrem duas vezes por século:
Quem quiser saber o dia de Páscoa de qualquer ano da nossa Era sem se dar ao trabalho de efectuar estes cálculos, pode consultar este algoritmo desenvolvido a partir do método de Delambre, e que acrescenta ainda o dia de Carnaval e o do Corpo de Cristo.
E pronto. Espero que passem um excelente dia 11 (ou, recorrendo ao algoritmo gaussiano, Resto de (19 x Resto de (2004 ÷ 19) + 24) ÷ 30 + Resto de (2 x Resto de (2004 ÷ 4) + 4 x Resto de (2004 ÷ 7) + 6 x (Resto de ((19 x Resto de (2004 ÷ 19) + 24) ÷ 30)) + 5) ÷ 7) – 9) de Abril e, já agora, conheçam também o matemático mais relacionado com a Páscoa. E não é por ter inventado algo que ajudou muita gente a efectuar os cálculos acima.
Cumpriram-se ontem dois anos de desgovernação.
De cada vez que se festejam estes aniversários, lembro-me duma piada que me contaram há já uns anitos, mas que se adequa a qualquer executivo desgovernamental.
Eis, portanto, uma anedota dedicada à anedota que é este desgoverno.
Durante o primeiro ano de desgovernação, e após muita contestação, o PM resolve abrir a primeira carta:
– Culpe o executivo anterior: «Deixaram o país ingovernável, à beira da bancarrota, estamos ainda a pôr ordem na casa...»
As coisas acalmam, mas, no decurso do segundo ano, a contestação sobe novamente de tom, e o PM resolve abrir a segunda carta:
– Culpe a conjuntura internacional: «A crise é geral. O mundo encontra-se em recessão. A retoma está a chegar e tudo melhorará...»
A contestação diminui, mas no terceiro ano volta em força. O PM resolve abrir a terceira carta:
– Culpe as forças de bloqueio: «O Presidente da República que, com os vetos, atrasa a aprovação de leis fundamentais, a Comunicação Social que não pára de descobrir escândalos, os lobbies...»
Novamente acalmia. Só que, no quarto ano, a contestação volta mais forte do que nunca e o PM resolve abrir a quarta e última carta:
– Se precisou de abrir esta, comece a escrever as quatro para o próximo PM.

Imperdíveis as palavras lúcidas de um escritor maldito, que até sabe empregar o discurso directo: Luíz Pacheco. Na primeira pessoa. Ele.

Edição de hoje
Ora aqui está uma notícia que me enche de alegria e orgulho de ser português. A demonstração inequívoca de que todos os cidadãos que vivem neste país são tratados de igual modo, independentemente da sua nacionalidade, da sua profissão, da sua condição social...
O futebolista brasileiro Rochemback que foi emprestado ao Sporting pelo Barcelona, será finalmente operado, ao que tudo indica, depois de amanhã, após cinco anos em lista de espera como qualquer vulgar cidadão deste país.
Felizmente não lhe aconteceu o que já vai sendo hábito, provavelmente devido à sua condição de atleta com hábitos de vida saudáveis.
Os meus sinceros votos de melhoras para o rapaz e um grande bem haja.
Cai neve
Se eu não tivesse que pagar a salvação Se as novas igrejas não fossem velhos cinemas Se a vida não tivesse tantos dilemas Se houvesse um volta-face E o mundo melhorasse E nós vivêssemos em paz Se eu soubesse ser um pouco mais feliz «Cai neve em pleno verão Se o trabalho hoje não fosse tão escasso «Cai neve em pleno verão Cai neve em pleno verão Fernando Girão | ![]() Cantos da Alma, 1998 |
Dono de uma voz extraordinária, de uma rara sensibilidade musical e de uma notável capacidade para escrever canções (e não só), o cidadão do mundo Fernando Girão é um artista de inegável qualidade e de obra praticamente desconhecida em Portugal, apesar da já extensa carreira que o levou a tantos cantos do mundo.
De cada vez que o ouço não consigo deixar de pensar que um país que se está nas tintas para um talento como o dele, é uma merda de país. Tenho dito.
Eis de volta o Cidadão.
Tudo começou com uma inofensiva partida de 1 de Abril. O post desse dia esteve até para se chamar «Partida».
Anunciar o fim do blogue nessa data tinha o inconveniente de se perceber logo que era brincadeira, mas, por outro lado, pareceria que podia ser a sério: Este gajo não faria uma coisa tão óbvia, se calhar vai acabar mesmo... Ou então quer que pensemos isso e talvez não acabe, ou antes pelo contrário, quiçá... Bom, eu sei que sabem que eu sei o que terão pensado que eu pensei (obrigado Zezinha Nogueira Pinto).
Só que a minha querida Sónia presenteou-me com uma ideia bem melhor num comentário: rebentar mesmo com o blogue na data anunciada para depois o ressucitar (palavra adequadíssima ao período festivo que atravessamos).
E assim foi. O Cidadão explodiu e ressuscitou dois dias depois (não foram três para não ser acusado de plágio).
Saibam que me diverti à brava com as reacções ao anúncio do fim e mais ainda com alguns posts que foram escritos sobre o assunto em alguns blogues.
E pronto. Agora que está tudo explicado, o Cidadão volta à sua labuta bloguística com vontade redobrada, mas, infelizmente, com o tempo reduzido devido a mais uma carga de trabalho extra que se avizinha, e que durará aproximadamente dois meses. Mas não há-de ser nada. Haja saúde.
Para a mentira ser segura
e atingir profundidade,
tem que trazer à mistura
qualquer coisa de verdade.
António Aleixo
O fim é inevitável. O universo, o sistema solar, o planeta, os seres vivos, um dia findarão...
Mas se há fins que não poderemos controlar, outros há que estão nas nossas mãos. E o fim deste blogue está nas minhas.
Pois é, após profunda - se calhar, nem tanto - meditação, concluí que é tempo de pôr uma pedra sobre este Cidadão.
Nada me motiva presentemente a escrever o que quer que seja. Ando sem pachorra para isto dos blogues, que me roubam um tempo precioso para outras coisas que me dão muito mais prazer.
O blogue ficará activo até domingo - perfazendo assim exactamente sete meses de existência - dia em que será definitivamente apagado.
Esta decisão é irreversível.
Posto isto, porque que há quem considere a selecção portuguesa candidata ao título europeu, é para mim um completo mistério.