Excelentíssimo senhor Rui, acuso a recepção da sua missiva.
Desde já adianto nunca me passou pela cabeça atingi-lo com o meu singelo post. É claro que sabia que o senhor não é o que aparenta, mas, honestamente, supunha que a sua verdadeira identidade fosse a de uma senhora quarentona, proveniente de boas famílias, de profissão liberal e provavelmente divorciada.
Agora que está desfeito o equívoco em que laborei todos estes meses, peço humildemente desculpa pelo meu fraco poder de análise e, ainda mais grave, por sempre o ter tratado por tu. A educação que recebi não concebe este tipo de proximidade entre pessoas de idade tão díspare, e garanto, que me recrimino profundamente por tal facto.
Mais adianto que também eu não sou o que aparento. Para que não restem dúvidas da minha boa vontade perante a sua tão esclarecedora atitude ao se desmascarar revelar tal como é, abro também o jogo. Ainda mais porque se permitiu tecer considerações sobre o que pensa ser a minha vida pessoal.
O meu nome não é Fernando (surpreendido?). Chamo-me Irina, nasci na Ucrânia, tenho 41 anos (embora não aparente mais de 40) e, apesar de arquitecta de formação, trabalho como manicura num salão em Ermesinde.
Imigrei para Portugal há sete anos e deixei os meus três filhos com os meus pais em Kiev. Já fiz de tudo por aqui. No início, servia à mesa e limpava retretes (não necessariamente por esta ordem). Depois trabalhei numa fábrica de enlatados em que comia o que sobrava e o dono me comia a mim (e mal). Vivi cinco anos sem documentos, explorada por patrões sem escrúpulos e ameaçada por mafias russas. Vivi tempos de puro terror, é verdade, mas não quero aborrecê-lo com as vicissitudes por que passei nessa época.
Agora estou um pouco melhor. Há cerca de dois anos conheci um senhor abastado que tinha um negócio de calçado no norte e que também era dono dum bar frequentado por indivíduos bem apetrechados (de dinheiro, que do resto...). Ele arranjou-me trabalho no tal antro bar, e pouco tempo demorei até travar conhecimento com um conhecido futebolista com ambições políticas, com o qual vivo até hoje. Bem, "vivo" é uma maneira de dizer. Ele vive com a mulher e com os filhos e montou-me este negócio de manicura. A mulher dele é minha cliente e muito simpática (e bem melhor que ele em certas coisas, mas isso agora não interessa nada). Como ela tem conhecimentos muito profundos a nível da classe política, ando a tentar usar as suas influências para que o Santana meta uma cunha ao Carmona e me entregue o projecto mal parado do Parque Mayer. É que o que eu gostava mesmo era de voltar a exercer arquitectura, e saio muito mais em conta que o meu colega Gehry. Porque de teatro percebo eu (daí o tal post que escrevi), e, com jeitinho, ainda têm direito a bónus ;)
Posto isto, e sem querer de forma alguma faltar-lhe ao respeito, quer parecer-me que os seus problemas de saúde, o seu stress de guerra (não combateu por mim, que eu estava longe) e a sua falta de tusa, nada são quando comparados com os meus problemas. Também eu tenho que dar o corpo ao manifesto, se quiser sobreviver neste país onde tudo se resolve às três pancadas e ninguém dá uma para a caixa (estranhas expressões estas que vocês usam).
Como vê, caro Rui, também me julgou mal. Afinal, ambos não passamos de duas almas massacradas pela puta da vida.
Desejo-lhe tudo de bom e, já agora, boas brincadeiras com as teias de aranha.
P.S. - A revelação das nossas verdadeiras identidades demonstra que, afinal, eu tinha razão quanto à tendência bloguista de criar personagens. Aproveito ainda para lançar um desafio à blogosfera. Tal como nós tivemos a coragem de expor publicamente quem na realidade somos, seria bom que outros bloguistas o fizessem. A bem da transparência e da verdade.
Outro P.S. - Apesar de eu escrever com muito menos erros do que a maioria dos licenciados deste país que me acolheu, peço desde já desculpa por qualquer eventual erro ortográfico. É que desde que li a sua carta, ainda não consegui parar de rir às gargalhadas... Ops, porra! Mijei-me toda...
Publicado por Fernando @ 08:17oi, parabéns pelo site visite também o meu.
Afixado por: Leo em janeiro 13, 2005 05:26 PMLindu!! Isto deve ser tipiko das irinas... modéstia à parte... =PPP
Afixado por: outra irina ;) em agosto 15, 2004 06:27 PMLindu!! Isto deve ser tipiko das irinas... modéstia à parte... =PPP
Afixado por: outra irina ;) em agosto 15, 2004 06:27 PMNão percebo onde a Sr.ª Cátia vê algo ridículo na Irina. Ela é meu mulher e muito mais esperto do que eu. Ela estuda e ler muito, já ler muitos obras. Eu de obras sei muito mas outras obras. Gosto mais de obras em pedra e betão.
Afixado por: Fodirina Romanof em agosto 3, 2004 06:32 PMQue ridículo.
Afixado por: Cátia Gomes em agosto 2, 2004 11:38 AMOra Irina, minha, um comentário asssim, tão seco, logo depois de teres sido tu a responsável por me fazeres revelar a minha identidade secreta, filha...A sorte é que vou sair agora para levar ali um material ao Sul de Espanha e posso esquecer a tua frieza nos braços de alguma "salerosa". Adeus, até ao meu regresso.
Teu, Toni
Querida Cátia, deixo-te aqui publicamente o meu mais sincero obrigado. É que, depois de saber que os teus dois comentários são para levar a sério, ri-me como há muito não o fazia. Até às lágrimas, confesso.
Bem hajas por isso.
P.S. Já li a obra completa do Fernando Pessoa, do Alberto Caeiro e do Álvaro de Campos (o meu preferido) e, muitos dos poemas, várias vezes.
Achas que devo ler tudo outra vez?
Confesso que não vou muito à bola com o Ricardo Reis. Se calhar é esse que me falta para aprender alguma coisa interessante.
Vou ponderar o assunto.
Mas era mesmo a sério. Das duas uma, ou eu estou a perder qualidades de persuasão ou a Irina é muito má nas suas conclusões. A segunda hipótese parece-me a mais indicada. Relativamente às unhas, não preciso de manicura (apesar do nome do seu salão ser deveras apelativo). Quase tão apelativo quanto os seus comentários. Eu própria arranjo as minhas unhas. Tenho talentos a todos os níveis. Uma sugestão, leia Fernando Pessoa. Pode ser que aprenda alguma coisa interessante.
Afixado por: Cátia Gomes em julho 31, 2004 11:41 PMCara Irina
Acusações de massacres têm que ser provadas e fundamentadas
Não gosto de ser apontada assim, levianamente, como culpada...
Querida Cátia, parabéns. O seu talento para a ironia é fabuloso. Por um instante julguei que o que escreveu era a sério. Sua fingidora!
Se alguma vez vier a Ermesinde e precisar duma manicura, não se acanhe.
«Salão Irina Fodnov. Faça as unhas ou vá ver se chove!»
Quem tem unhas toca balalaika, minha querida.
Caro Mar, lamento dizer-lho, mas não me surpreendeu. Qualquer dicionário esclarece que Mar é do género masculino.
Afixado por: Fernando em julho 31, 2004 10:09 PMPronto, acito o desafio.
É claro que apesar de toda a gente achar que Mar é uma mulher, não sou nada. Chamo-me Toni e sou camionista.Quer dizer, faço biscates quando posso q'isto tá mau e é para todos.
Nas alturas em que não há serviço porque aqueles pacotes que eu costume levar escondidos dentro das caixas de papel higiénico (assim como assim é tudo branco e disfarça, tão a ver?), trabalho como travesti num bar gay e sou conhecido por Nina, a Doce. Tenho um bocado de dificuldade em esconder as tatuagens,Amor de mãe e Guiné és a minha vida, respectivamente nos bíceps esquerdo e direito, mas agora há uns produtos novos que chegaram ao Salão da minha amiga Irina e que, bem espalhados, tapam aquilo. Também não me endireito lá muito bem nos saltos de 10 cm, aqueles tipo plataforma do Cristo-Rei mas os gajos não me deixam usar botas da tropa, dizem que não fica sexy com as olumas. Bah...paneleiros, vá-se lá percebê-los.
Vivo sózinho desde que a minha santa mãezinha bateu as botas e tenho uma rapariga que, de vez em quando me vai lavar as meias e, se lhe pagar mais qualquer coisinha, também me deixa dar-lhe uma. Coitada, também quem é que lhe pega com aquele bigode farfalhudo e o cheiro a queijo debaixo do sovaco...adiante. Gosto muito de vir aqui e sonhar que sou uma rapariga fina de olhos azuis e caracóis loiros suavemente cacheados, deve ser uma coisa qualquer que chamam fetiche, nãoo sei mas o que é certo é que cada vez que começo ali a escrever dá-me logo um calor no baixo-ventre...
E prontos, estou apresentado quero agora ver se os outros que dizem que são este e aquele aí das televisões e da política têm-nos no sítio e pretos para virem aqui dizer quem são. Deixem-me lá ir que tenho que ir rapar as pernas.
LOL!
Genial...já agora, Dona Irina, onde é que fica o salão, tenho as unhas numa lástima... ;-)))))
Não percebi qual o seu direito de acusar os outros bloguistas de fingidores. Afinal, a fingidora não sou eu (como bloguista que sou), mas a senhora. Vejo que já adquiriu um velho hábito português. Usar o seu exemplo para julgar os outros. Aprende depressa.
Afixado por: Cátia Gomes em julho 31, 2004 01:44 PMCara Irina, partilho as suas mágoas e os seus receios. Caso necessite de desabafar, esteja à vontade. Respeitosos cumprimentos.
Essa dos licenciados analfabetos funcionais, é verdade. Infelizmente. E fiquei triste...porque pensei que o post de tanta controvérsia era dirigido a mim, e afinal havia outro.!Porra! Já não se pode confiar em ninguém!
Afixado por: Orlando em julho 30, 2004 09:45 AMAssim não vale enganar as pessoas!!! Eu pensava que eras a Edite Estrela... Buaaaaaáááá. Estou chocada!
Afixado por: jacky em julho 30, 2004 08:02 AMComento depois de limpar as lágrimas q de tanto rir ficaram coladas ao ecrã :-)
Afixado por: Alex do blog em julho 29, 2004 05:51 PMe-mail enviado.
Afixado por: juraan vink em julho 29, 2004 12:55 PMIrina,
Tendo a preferir a sua exposicao, e a do excelentissimo senhor Rui (e eu que o tratava com familiaridade! Mas que falta de respeito com um velho invalido!), a qualquer revelacao que eu possa fazer. Mas folgo em saber que agora poderemos conversar sobre a vida alheia (nao a do Ilmo. Exmo. senhor Rui, entenda-se) enquanto voce me faz as unhas. Bem que estou precisando!
Afixado por: cath em julho 29, 2004 11:31 AMGostei do post Irina. E do outro também.
E, não desfazendo, também gostei do seu, Rui.
Isto está giro...
Pois eu aqui consigo der mais EU...mais autêntica, mais fiel a mim mesma...queiram ou não!
Sou nova nisto...talvez ingénua...que ninguém me liga muito...também é verdade! Mas pelo menos escervendo...escrevo e digo aquilo que não me atreveria a dizer às pessoas que me rodeiam no meu dia-a-dia...
ou isso, sei lá!
Afixado por: blueshell em julho 28, 2004 11:22 PMExcelente autopsicografia! ;)
Afixado por: TNT em julho 28, 2004 10:29 PM:)
Afixado por: juraan vink em julho 28, 2004 08:20 PM