Lembro-me de, durante os ensaios de teatro, o meu amigo Nabais, teu companheiro de prisão em Caxias, me ter contado inúmeras vezes que construíste um braço de guitarra com uma ripa e uns arames, e que passavas o tempo a sonhar um país nos sons que imaginavas enquanto exercitavas os dedos. Porque te proibiram a companhia da tua arma de doze cordas.
Lembro-me daquele concerto em que tu, chegado ao fim duma interpretação sublime, pediste humildemente desculpa porque se havia partido uma corda durante a execução do tema e tiveste que ir buscar as notas a outro lado.
Lembro-me da minha amiga Donna Short, (uma das minhas primeiras amizades via Internet, ainda do tempo em que não havia blogues), falecida em Setembro de 2000. De quando lhe enviei um disco teu (junto com um de Amália), que ela ouvia a altos berros atraindo os seus vizinhos em New Orleans que perguntavam, incrédulos pela beleza do que ouviam: meu Deus, o que é isto?
Lembro-me de lhe ter traduzido e explicado os poemas que Amália cantava – a mesma Amália que faria 84 anos no dia em que morreste –, porque ela queria saber mais sobre um país que lhe era totalmente desconhecido e que tinha parido tão comoventes artistas.
Lembro-me de ter recebido um email do filho a dar-me a notícia da sua morte, dizendo também que guardaria aqueles discos religiosamente.
Lembro-me do Marcel, um jovem alemão que estagiou comigo no estúdio numa altura em que se gravava fado e que ficou extasiado com o som da guitarra portuguesa. E o que havia eu de lhe oferecer quando viu chegada a hora de voltar à Alemanha?
Lembro-me de o Dr. Augusto Camacho, o primeiro a ser acompanhado por ti em gravações, me contar histórias deliciosas a teu respeito. De como as relações com o teu pai azedaram depois de teres gravado um arranjo seu que ele achava não tocares suficientemente bem. De como estudaste o Movimento Perpétuo durante dois anos antes de o gravares e de ninguém mais o conseguir tocar. (Parece que o Ricardo Rocha consegue, o que não me espanta nada. A tua arte tem seguidores, Carlos).
Lembro-me de um Natal em que a minha irmã me ofereceu um disco teu e de a minha mulher lhe ter perguntado se ela já o tinha. Lembro-me de, após a resposta negativa, a minha mulher lhe ter entregue um disco igual como presente (que havia sido comprado para mim).
Lembro-me de, há muitos anos, após uma semana sem ouvir falar português, ter ouvido uma gravação tua numa discoteca em Munique e de ter desatado a chorar sem saber porquê. Talvez por a beleza transbordante da tua música se tornar ainda mais infinita com a distância.
Lembro-me que há recantos da minha cidade que me levam inconscientemente a trautear as deliciosas melodias que inventaste.
Lembro-me de ter lido algures que um dia disseste: «Gosto demais da música para viver à custa dela».
Lembro-me de tanta coisa.
Publicado por Fernando @ 02:17E muito obrigado por partilhares essas lembranças.
Afixado por: Joao em julho 25, 2004 10:44 PM:-)
Afixado por: jacky em julho 25, 2004 09:01 PMAcho que foi a morte que melhor se "celebrou" pois foi celebrada com música, música que ele próprio compôs e interpretou. Sei que terias que deixar passar um tempo porque estiveste bem próximo dele. Escreveste um poema, quiçá com música.
Afixado por: Henrique em julho 25, 2004 12:16 PM