Cidadão do Mundo


[segunda-feira, 19 de julho de 2004]

O palco blogosférico

Representar não é a realidade – é mais cruel do que a realidade. É um acto de crueldade que o actor inflige a si mesmo.
Jeanne Moreau

Ninguém alguma vez escreveu ou pintou, esculpiu, modelou, construiu ou inventou senão para sair do inferno.
Antonin Artaud in Van Gogh, o Suicidado da Sociedade


Muita gente se tem interrogado – eu incluído – sobre o que levará alguém a criar e a manter um blogue. Que misteriosos desígnios levarão uma alma a perder o seu precioso tempo escrevinhando uns textos, procurando poemas e imagens para publicar, lutando com templates, perdendo-se nos meandros do HTML, e ainda ler outros blogues, comentá-los, citá-los, alimentar polémicas, eu sei lá?...
Porque, não nos iludamos, isto requer tempo e esforço. Algum tempo, muito tempo, algum esforço, muito esforço... Dependerá de cada um.

Após mais de dez meses nisto, creio já ter experiência mais do que suficiente para fazer esta análise. E creio que há duas razões principais, que explanarei mais adiante.
Neste espaço de tempo conheci (virtual, mas também pessoalmente) muita gente nova, fui alvo de intrigas(!!!), houve quem se chateasse comigo, quem me apelidasse de reaccionário, de esquerdalho (em que é que ficamos?), há quem me deteste; descobri que há quem leia regularmente o que escrevo (apesar de alguns poucas ou nenhumas vezes terem comentado), quem ache que sou um génio(!!!), quem me cite...
E aprendi que nos blogues, como na vida, as pessoas – eu também – não são exactamente o que aparentam ser, apesar de haver, obviamente, gradações neste afastamento da realidade.

A verdade é que, por mais que teimemos que o nosso blogue reflicta fielmente a nossa personalidade, pela característica pública de que se reveste este meio de comunicação – sim, é –, há nele, necessariamente, uma espécie de desfasamento da nossa realidade interior: ninguém se expõe abertamente a desconhecidos, mesmo acomodado sob a capa do anonimato.
Significa isto que somos todos, de alguma forma, actores neste palco blogosférico. Gostamos de representar uma personagem, que alguns crerão ser a sua, mas que, pelas razões atrás expostas, não o será fielmente.

O meu grande amigo Fernando Augusto – encenador, dramaturgo, poeta e uma mão cheia de outras coisas mais – numa das nossas inúmeras conversas que, inevitavelmente, entravam madrugada dentro, disse-me que um actor tem que ser, primeiro que tudo, vaidoso. Só depois vem o talento. É a vaidade que o faz expor-se diante de desconhecidos, que o faz querer mostrar-se, aparecer. Não o aparecer warholiano de 15 minutos, mas o estou aqui, existo e tenho algo importante para partilhar convosco.
Nunca me esqueci destas palavras – tanto mais interessantes porquanto o Fernando foi, de toda a gente que conheci, o que mais sabia de Teatro e dos que mais amava o Teatro.

Volto então à questão inicial: o que levará alguém a criar um blogue?
Sendo o bloguista um actor, a vaidade, antes de mais nada. A vaidade de aparecer por achar que tem algo a dizer, por acreditar que o deve compartilhar com outros e que isso é, de algum modo, importante para si e para quem o lê.
O tempo gasto, as insónias, todas as dificuldades a que se sujeita, fazem parte do processo de representar. São o acto de crueldade que o actor inflige a si mesmo, a que se referiu Jeanne Moreau e que torna a blogosfera num verdadeiro palco de não-realidade. Paradoxal? Será, mas é também de paradoxos que se alimenta a natureza humana.
É também claro que o bloguista usa muita da sua experiência pessoal e transpõe muitas das suas frustrações e alegrias para o papel que interpreta, ao jeito do mais puro sistema de Stanislavski.
Essa é também a razão de gostar de ser visitado e se preocupar com isso, por mais que afirme o contrário, ou disso se queira convencer (outra vez o actor, representando agora para si próprio). Porque o actor só se sente feliz e realizado quando tem público.

Mas, como se lhe não bastara a faceta de actor – já de si um acto de criação, embora muitas vezes inconsciente –, o bloguista é ainda um criador de outras artes. Essencialmente da escrita, mas não só. A própria organização do seu blogue, a escolha de imagens, de poemas ou de outros textos, acarreta consigo todo um aspecto estético de sensibilidade e gosto que não é despiciendo, e que poderá ser entendido à luz duma nova e cibernética forma de arte.
Dir-me-ão que há blogues que são um autêntico atentado ao bom-gosto, com textos de qualidade inexistente, etc. É verdade. E é aqui que entra o talento: uns têm-no, outros não.
Mas o esforço que preside ao seu acto, que não deixa de ser criativo, entronca inequivocamente na tentativa de sair do inferno, a que Antonin Artaud aludiu.
Os blogues inserem-se assim numa atitude escapista do inferno que nos circunda a cada passo que damos. O inferno que é o quotidiano. O inferno que são os outros. O inferno que somos nós. O inferno que é a vida... E esta é a segunda razão para criar um blogue.

Somos actores de nós próprios e, por inerência, somos vaidosos. E é através dessa capacidade teatral de metamorfose que procuramos o paraíso.
A verdade é que um blogue não é a vida, nem a vida é um blogue. A blogosfera não passa de mais um palco em que cada bloguista actua em busca da felicidade. É apenas mais um palco no teatro da vida.
É por isso que, enquanto houver vaidade e a humanidade sonhar ser feliz, os blogues não acabarão.

Continuem, pois, a procurar a felicidade e – como se diz no mundo do teatro – muita merda para todos!

Publicado por Fernando @ 03:29
Comentários

PARA ALGUNS BLOGUISTAS EM CRISE EXISTENCIAL COMO TAL:

"Tudo é orgulho e inconsciência.
Tudo é querer mexer-se, fazer cousas, deixar rasto. "

F.Pessoa

Afixado por: rosa Leonor em julho 29, 2004 04:15 PM

Para quem se interessar, como complemento a este post. http://mama.indstate.edu/users/bones/WhyIHateWebLogs.html#why
Eu enfiei todas as carapuças!;)

Afixado por: kaku em julho 28, 2004 09:24 PM

eNFIM, CADA UM FALA POR SI E QUE A VIDA É UM TEATRO TODOS NÓS SABEMOS. sEM DÚVIDA QUE É A NECESSIDADE DE ECO QUE NOS FAZER PARA FORA SEJA O QUE FOR...MAS PORVENTURA VIVEMOS SÓS E PARA NÓS EXCLUSIVAMNETE?
tEATRO POR TEATRO FIQUEMOS COM O NOSSO QUE PARA NÓS QUANDO É VERDADEIRO, NÃO ENGANA NINGUÉM...
qUEM QUER ENTRA QUEM QUER SÁI DO ECRAN.
nINGUÉM É MAIS VERDADEIRO QUE NINGUÉM NEM NINGUÉM É MAIS MENTIROSO QUE O OUTRO...
r.l.
PORQUE O QUE AFINAL VERDADEIRAMENTE SOMOS SENDO IGUAL PARA TODOS, TODOS NÓS O DESCONHEMOS E ISSO É A MORTE...DO ARTISTA!

Afixado por: rosa Leonor em julho 28, 2004 04:07 PM

men`s bora aí ao café ?

Afixado por: procópio em julho 28, 2004 02:22 AM

"(...) viver na verdade, não mentir nem a si próprio nem aos outros, só é possível se não houver público nenhum. A partir do momento em que os nossos actos têm uma testemunha, quer queiramos quer não, adaptamo-nos aos olhos que nos observam; e, a partir de então, nada do que fazemos é verdadeiro. Ter um público, pensar num público, é viver na mentira."

Milan Kundera, in "A insustentável leveza do ser" (pp.131-132)


(lá estou eu egocentricamente a repetir o que já disse no meu próprio blog... Mas de facto acho que vem mesmo a propósito...)
*inhos

Afixado por: Loopy em julho 20, 2004 05:40 PM

Não só aqui, Fernando, mas também no próprio palco da vida...

Afixado por: Maria Branco em julho 20, 2004 02:20 PM

Como Pecola citou o tio Shakespeare, se ele fosse vivo (quem sabe?), diria: "Ser ou não ser blogado, eis a questão". Mas um blog é capital e, por isso, se Marx fosse vivo, ele teria escrito "Das Blog" em vez de "Das Kapital" e Einstein (já agora) teria dito "Tudo é blogativo". Mas o marquês acha que é tudo negócio. Até o teatro.

Afixado por: TNT em julho 20, 2004 02:13 PM

Abordagem profunda, essa. Gostei muito. Ainda mais que citas a minha atriz favorita :).

Sera que os atores, como supostamente (?) os bloguistas, preferem ver-se atuando, ao inves de apreciar o trabalho de outros atores?

Sera que queremos criar personagens so pelo prazer de, talvez ilusoriamente, ve-los em exibicao?

Sei que o meu blogue nao eh feito por mim. Raramente consigo desviar-me dos temas principais, ja que o meu "personagem" nao me deixa. E eh um personagem tosco. Mas ja manda.

Bom. Pelo menos nos questionamos. E aperfeicoamos (ou tornamos menos sofrivel) a nossa capacidade de atuacao.

Quem sabe para trazer os personagens para a vida real?

Tenho que dizer que me encantei por posts escritos por outrem, inclusive, obviamente, pelo Cidadao. E, por isso ou por outras razoes, prossegui com meu pequeno palco cibernetico...

Um abraco, que esse texto esta supimpa. E visite o meu blogue. Hahaha!

Afixado por: cath em julho 20, 2004 11:46 AM

Enfiei a carapuça, sim senhor :-)

Afixado por: jacky em julho 20, 2004 08:02 AM

Já Shakespeare dizia: "All the world's a stage, and all men and women merely players..."

Afixado por: Pecola em julho 19, 2004 11:33 PM

Por ser um bocado extenso, escrevi um comentário no meu blogue.

Afixado por: Orlando em julho 19, 2004 11:22 PM

Parece-me que as motivações poderão ser diversas. Mas concordo que todos os bloguistas escrevem para serem lidos, não o reconhecer é mera fuga.
Agora em relação ao desfasamento entre aquilo que somos e aquilo que transpomos para o blog, com as devidas diferenças, é semelhante ao que fazemos no nosso quotidiano. Haverá bloguistas que aqui acentuam esse desfasamento porque expõem uma faceta especifica do seu ser, sendo uma opção clara e não uma fuga. Haverá outros que se mantêm semelhantes ao que são na sua vida quotidiana e outros ainda que estão a várias distâncias destas duas.
Achava mais interessante fazer uma análise dos comentaristas porque aí esse desfasamento chega às raias, em alguns casos, do patológico
abraço blogueiro

Afixado por: GIN em julho 19, 2004 10:33 PM

Sua abordagem é bastante interessante. O universo dos bloguistas é realmente curioso.
A reflexão acerca do tema é fundamental, já que estamos diante de um fenômeno nas relações pessoais e participamos dele. Quais são os seus aspectos positivos e negativos? Como este meio de comunicação poderia ser melhor utilizado? Refletir, é preciso.

Afixado por: Nikki em julho 19, 2004 05:29 PM

Isto dá pano para várias e longas mangas. Aliás, é isto que faz falta, a provocação. E esta é uma provocação séria para reflexão. Somos desafiados a fazer um exame de consciência para saber até que ponto valerá a pena blogar. Blogo, logo existo? Ou blogo, logo desisto? Noutro blog que frequento (não interessa qual) o autor criticava os bloguistas porque a maior parte prefere escrever e ser lida do que ler e comentar o que outros escrevem. Ou seja, haverá mais actores que público? Pode até ser que não. Não se sabe ao certo.

Afixado por: Henrique em julho 19, 2004 04:31 PM

Gostei muito do post. Já agora: o distanciamente entre o mim real e bloguisto não é pensado nem representado - é assim mesmo

Afixado por: Alex do blog em julho 19, 2004 04:26 PM

é uma generalização, com tudo o que isso implica de erro e de acerto.
mas é, provavelmente, uma generalização correcta.

Afixado por: pml em julho 19, 2004 03:57 PM

(Pancadas de Moliére,
as luzes acendem-se lentamente,
sob um palco forrado a código html
os actores/escritores dão início à sua representação)

Uma boa semana.
Um abraço.

Afixado por: João em julho 19, 2004 09:42 AM