Desde muito cedo que Margarida – uma loira magra e franzina com a mania que era podre de boa – tinha um sonho. Um sonho que ciclicamente lhe preenchia o pequeno mas arrumado cérebro de que era orgulhosa proprietária, e que lhe percutia o seu amado neurónio até quase a enlouquecer: receber um Nobel da literatura.
Margarida não sabia escrever mas isso não a impediria de perseguir o seu sonho (é, aliás, para isso que os sonhos existem, para serem perseguidos – afirmaria um dia a uma revista cor-de-rosa).
Tanto porfiou que um dia conseguiu publicar. Inspirada pelo que não sabia, pelas coincidências, pelas almas ornitológicas e pelas estrelas populares, Margarida conseguiu – devidamente coadjuvada por meia-dúzia de amigos bem colocados nos meandros da comunicação social e do espectáculo – chamar a atenção dum povo sedento de literatura diferente.
O seu estilo leve e despreocupado, as suas personagens – principalmente as femininas – descomplexadas em relação à vida em geral e ao sexo em particular, guindaram-na aos píncaros da fama.
– Foda-se! Sou mesmo boa, caralho! – murmurou inúmeras vezes em inúmeras ocasiões...
A crítica literária referia-se a ela como uma escritora light e Margarida rejubilava. Ser considerada uma luz da moderna literatura portuguesa era mais um passo na longa caminhada rumo ao Nobel sonhado.
Mas – há sempre um mas nas histórias felizes – um belo dia a filha mais nova duma sua amiga explicou-lhe que light tinha mais do que um significado.
– Foda-se! Depois de já ter escrito a porra dum livro com o título em inglês, é que esta filha da puta de cinco anos me explica esta merda! Têm andado a gozar comigo, caralho! – pensou.
E foi para casa dormir sobre o assunto.
Na manhã seguinte, Margarida levantou-se mais bem disposta do que era costume. Farta de ser vexada e humilhada, começou calma e paulatinamente a magicar a sua vingança contra a intelectualidade de urinol que grassava no meio literário nacional.
Pensou, pensou, pensou... E já com o seu amado neurónio quase derretido pelo hercúleo esforço, teve subitamente uma ideia brilhante... Tão mais brilhante quanto gerada em tão pouco e escuro espaço: já que não gostavam dela, teriam que aturar um exército de clones seus. Decidiu criar a sua própria Escola de Escrita, mais um passo rumo ao sonho que perseguia.
– Foda-se! Sou mesmo boa, caralho! – murmurou uma vez mais...
E encheu o país e o mundo com milhares e milhares de Margaridas que floriram em todas as livrarias e hipermercados, e que selectivamente foram murchando os concorrentes até só restarem Margaridas. E finalmente ganhou o Nobel.
O seu discurso em Estocolmo é hoje um clássico. Apesar de ter começado com uma frase modesta: – Eu sei que não sei muito, mas o pouco que sei, sabe-me a muito. – foi o seu grito final que ficou para a História e que arrancou aplausos frenéticos a uma plateia em puro delírio. Palavras essas que são hoje parafraseadas pelos seus inúmeros admiradores e seguidores, nas mais variadas situações:
– Foda-se! Sou mesmo boa, caralho!
Lindo, Nandinho, lindo! Que até estou com a lágrima no canto do olho...
Afixado por: Loopy em junho 1, 2004 01:04 AMPois ... e andava eu a tentar explicar-me , ou a não explicar nada, como se escrevia um conto e afinal já me passaram a perna :)
Este teu texto está 5 estrelas. Parabéns
Que má notícia!! uma escola de margaridas!!
É incrível a vaidade e capacidade de adquirir sucesso fácil no ser humano.
brilhante crítica ;)
...desculpem qualquer coisinha mas, quem é essa Guida?... :-(
Afixado por: quim em maio 20, 2004 09:13 PMNão conheço nenhuma margarida de apelido light. Deve descender de alguma família nobre e milenar americana...
Afixado por: jacky em maio 20, 2004 09:43 AMÉ caso para afirmar..." Cabecinha pensadora...)
Viva a imaginação criativa!
Valeu!
Afixado por: betania em maio 19, 2004 09:51 PMMeus amigos, há algo de estranho nalguns comentários. Há quem se refira à personagem da história como se de alguém real se tratasse. Relembro que este texto é pura ficção.
Afixado por: Fernando em maio 19, 2004 08:39 PMehehehe !!!!, boa, gostei.
um abraço
Nunca li nada da senhora, mas temos que compeender que ela também tem coração, uma alma, uma vagina...e lá diz o povo:"quem tem vagina, tem uma mina"...:o)
Afixado por: Orlando em maio 19, 2004 02:46 PMNegócios são negócios. Mas coitados dos professores que ela (e outros) tiveram porque não recebem qualquer comissão dessa escola de escrita.
Afixado por: TNT em maio 19, 2004 08:59 AMgaja boa? a meus olhos não. um pauzinho de virar tripas. nem na bifana se safa. é mesmo muito muito má. quer dizer, até pode ser excelente pessoa. os livros, nunca li. mas boa boa é que ela não é.
Afixado por: hmbf em maio 18, 2004 08:17 PMEstou aqui podre de tanto me rir...
Ahh...e o "Velho" MIJOU a TAMPA da sanita...que eu VI!....heheheh abraço, WB
Ah!Ah! Boa piada. Eu aqui no urinol, já sacudi o pingo e estou a fechar o zipper, mas ainda não deixei de me rir.
Afixado por: O Velho da Montanha em maio 18, 2004 12:46 PM:)) Bolas!!! esta é melhor critica que uma gaja tão boa como.... esta, poderia receber!! Estas gajas impressionam-me, que querem??
Eu Sei Lá o que ela escreve, mas f.o.d.a-se, a gaja é mesmo boa, c.a.r.a.l.h.o! Teve uma ideia genial. Um exército de Margaridas pululando a Terra. Não há coincidências isto teve de ser estudado e bem estudado. Teve de recorrer à memória de elefante e à Alma de Pássaro para conseguir sobrelevar-se assim e conseguir em vida o que muitos só conseguem na morte: gerar consenso... sobre a sua qualidade!
Afixado por: João em maio 18, 2004 08:18 AM