Pela primeira vez, abro o editor do blogue sem ideia alguma do vou escrever. Vou então debitar exactamente o que me vier à cabeça.
E o que me vem à cabeça é que, se às vezes me farto disto dos blogues e me pergunto qual o interesse de andar para aqui diariamente (ou quase) a escrever, a ler e comentar o que outros escrevem, outras me convenço de que tenho algo para dizer e que não posso defraudar quem gosta de me visitar (sim, parece que há!).
Vem-me à cabeça que uma querida amiga me pediu para eu não deixar nunca de ser como sou e que eu não faço a mínima ideia de como isso se consegue. Se calhar, não fazer esforço para tal, é a solução.
Vem-me à cabeça que se eu passar o resto da vida a ouvir só boa música, não consigo ouvir nem metade da que se compôs até hoje. Porque raio perco então tanto tempo a ouvir tanta porcaria? O mesmo para a literatura...
Vem-me à cabeça que enquanto escrevo isto, milhares sofrem doenças e fome ou morrem assassinados. E eu aqui, a escrever parvoíces.
Vem-me à cabeça que, neste preciso momento, provavelmente algum jovem estará a embrulhar explosivos à cintura para se imolar numa explosão que matará dezenas de infiéis.
Vem-me à cabeça que esse jovem provavelmente viu a família metralhada num campo de refugiados no Líbano e que cresceu sem expectativas de futuro e que é tão fácil indivíduos sem escrúpulos aproveitarem-se dessas fragilidades psicológicas e convencerem-nos a tornarem-se mártires.
Vem-me à cabeça que, mesmo assim, não consigo compreendê-lo.
Vem-me à cabeça que não é porque se matam e porque morrem pessoas, que posso privar-me de escrever o que me vem à cabeça.
Vem-me à cabeça que está a chegar a altura dessa chatice anual que é entregar o IRS.
Vem-me à cabeça que os dirigentes mundiais com influência directa no futuro da humanidade são uns imbecis e eu não posso fazer nada para alterar isso.
Vem-me à cabeça que já escrevi o suficiente para um post e que devo parar por aqui.
Vem-me à cabeça que um post não tem que ter tamanho definido. Tem o tamanho que eu quiser e que, portanto, não tenho que parar de escrever por isso.
Vem-me à cabeça que se escreve e fala muito mal neste país e que sempre que eu escrevi a censurar a política de ensino, fui criticado por ser elitista e antidemocrático.
Vem-me à cabeça que, sendo eu um indivíduo de esquerda, cada vez mais tenho opiniões que sempre associei à direita e penso muitas vezes que estou a ficar reaccionário.
Vem-me à cabeça que isso não interessa nada. Sou como sou e pronto.
Vem-me à cabeça que, a respeito do Dia Mundial do Teatro, a RTP passa neste momento um programa sobre o dito e que no resto do ano está-se nas tintas para o assunto.
Vem-me à cabeça que as coisas que nos vêm à cabeça, às vezes não têm nexo nenhum e que o encadeamento de pensamentos é uma coisa estranha e possivelmente mal estudada ou mesmo impossível de estudar.
Vem-me à cabeça que já chega.
Publicado por Fernando @ 00:13Vem-me à cabeça a nossa conversa sobre o silêncio (que não existe) e a música que é feita de sons, ma também de pausas e que toda a pausa tem de ser interpretada, como se de um som se tratasse. E o que é que isto tem a ver com o que escreveste? Se calhar nada, mas vem-me à cabeça. Ou se calhar até tem tudo a ver e por isso mesmo me veio à cabeça ;)
Afixado por: Sónia em abril 1, 2004 01:29 PM"Vem-me à cabeça" que não gostei deste post. Talvez porque me "vem à cabeça" que todas estas verdades ferem e o meu sofrimento actual não aguenta tanta dor. Um abraço, Fernando.
Afixado por: Maria Oliveira em março 29, 2004 11:37 PMTendo sido este post totalmente espontâneo, só demonstraste por que te considero um grande Amigo.
Afixado por: Rui em março 29, 2004 09:33 PMPor vezes também faço essas meditações mas raramente chego a alguma conclusão plausível.
Como escreveu José Niza: "Quis saber quem sou,
O que faço aqui..."
Um abraço.
teremos trocado de cabeça?
Afixado por: hmbf em março 28, 2004 08:52 PMQuerido Fernando, como vê, e por todos os outros comentários aqui deixados, todos passamos por momentos assim, com ou sem motivo, vividos com mais ou menos intensidade... junto-me também nesse pedido, não mude nunca! todos contamos consigo, aqui tambem, neste seu espaço!
Afixado por: Maria em março 28, 2004 06:07 PMQue cabeça tão confusa...
Afixado por: Peixoto em março 28, 2004 05:31 PMVem-me a cabeca rigorosamente todas essas coisas, ultimamente mais do que nunca. Como eu me identifiquei com esse post. Mas quero me juntar ao pedido da Meg: nao mudes. E nao facas esforco, porque, no seu caso, parece ser assim mesmo que se consegue.
Afixado por: cath em março 28, 2004 01:51 PMÉ bom sinal que tudo "isto" te venha à cabeça...é sinal de que estás vivo e consciente da realidade, o que nestes dias é pouco comum encontrar pessoas assim...a realidade por vezes é dificil de aceitar, mas temos que conviver com isso!
Lembra-te que nem todos os dias são maus, ainda existem imensas coisas bonitas para pensar, usa a cabeça!:)
Os pensamentos são como as cerejas, um puxa o outro. Algumas cerejas são verdes e outras maduras. Algumas são carnudas e outras moldes. Algumas são amargas e outras doces. Assim são os pensamentos. Mesmo se hoje estás triste e desinspirado, quero continuar a ler os teus pensamentos! Até porque as cerejas são a minha fruta favorita ;-)
Afixado por: jacky em março 28, 2004 02:35 AMPois o marquês concorda também com tudo o que diz e passa-lhe, se calhar, as mesmíssimas coisas pela cabeça. E, já que falou também na chatice do IRS, é uma das coisas que mais dá que pensar ao marquês. "Era suposto" que o IRS tivesse como efeito uma melhor distribuição da riqueza. Mas tem o efeito contrário porque os que mais ganham são os que mais facilmente podem fugir. Quanto ao desânimo de não se ver nada a mudar para melhor, acontece.
Afixado por: TNT em março 28, 2004 12:54 AM