Mandaste-me dizer,
No teu bilhete ardente,
Que hás-de por mim morrer,
Morrer muito contente.
Lançaste no papel
As mais lascivas frases;
A carta era um painel
De cenas de rapazes!
Ó cálida mulher,
Teus dedos delicados
Traçaram do prazer
Os quadros depravados!
Contudo, um teu olhar
É muito mais fogoso,
Que a febre epistolar
Do teu bilhete ansioso:
Do teu rostinho oval
Os olhos tão nefandos
Traduzem menos mal
Os vícios execrandos.
Teus olhos sensuais
Libidinosa Marta,
Teus olhos dizem mais
Que a tua própria carta.
As grandes comoções
Tu, neles, sempre espelhas;
São lúbricas paixões
As vívidas centelhas...
Teus olhos imorais,
Mulher, que me dissecas,
Teus olhos dizem mais,
Que muitas bibliotecas!
Cesário Verde (1855-1886)
Publicado por Fernando @ 16:24Bravissimo pela citacao! Cesario Verde eh uma maravilha. E tambem, bravissimo pelo novo layout do "E Deus..."! Ficou lindo.
Afixado por: cath em fevereiro 8, 2004 12:08 AM...por falar em olhar e do mesmo autor:
"O seu olhar possui, num jogo ardente,
Um arcanjo e um demónio a iluminá-lo;
Como um florete, fere agudamente,
E afaga como o pêlo de um regalo!"
Acho que não, meu caro Rui. Quem me dera ter um centésimo da capacidade poética do Cesário. Há quem o considere maior que o Pessoa...
Afixado por: Fernando em fevereiro 6, 2004 12:54 AMO senhor anfitrião desculpe, mas queria dizer obviamente "este poema".
Afixado por: Rui em fevereiro 5, 2004 11:16 PMEste blogue poderia ter sido escrito por ti.
Afixado por: Rui em fevereiro 5, 2004 11:15 PMNão há nada como ler o olhar. Há tanto tempo que nã lia nada de Cesário Verde. É bom matar as saudades! :)
Afixado por: Sofia em fevereiro 5, 2004 10:18 PM