Quem conta um conto acrescenta um ponto, é um provérbio bem conhecido que revela o vício humano de modificar o que se ouve ou lê, e de o retransmitir com um - chamemos-lhe assim - cunho pessoal. Há uma série de frases e de situações, geralmente admitidas como verdadeiras, que aceitamos com a maior das naturalidades.
Entre essas contam-se, por exemplo, o «Elementar, meu caro Watson» nunca proferido por Sherlock Holmes em qualquer dos livros de Conan Doyle, e o «Play it again, Sam» de Casablanca, que também nunca foi dito no filme.
É claro que qualquer destas frases seria perfeitamente plausível, mas há uma que desde sempre achei um perfeito disparate: «É mais fácil um camelo passar pelo buraco duma agulha, do que um rico entrar no reino dos céus».
Porque é que Cristo diria tal coisa? Que raio de imagem... Um camelo, porquê?
Só anos depois de a ter ouvido pela primeira vez, li uma explicação verosímil para o assunto: em aramaico, kamelos significaria camelo, enquanto kamilos quereria dizer corda. Na tradução para o latim teria ocorrido uma leitura errada do original, convertendo a corda no metafórico animal.
Mas, apesar desta explicação fazer sentido, algo há em que ela não me esclareceu. Se a frase em si é um perfeito absurdo, mais absurdo ainda, é o facto de muita gente a ter admitido, nos últimos dois mil anos, como perfeitamente natural.
Se calhar, há coisas que não têm mesmo explicação.
Publicado por Fernando @ 20:49Caro JC, muito obrigado pela correcção a respeito do aramaico, do grego, do k e do i. Para lhe dizer a verdade, li essa explicação há tanto tempo, que nem me recordo se seriam exactamente as línguas e as letras que mencionei. Mas isso não é importante para o que escrevi. A intenção da frase é óbvia e mesmo mal traduzida, compreendo-a perfeitamente. O que não é óbvio é o camelo, que é tão absurdo que não há simbologia que o explique. O único animal grande (comparativamente à agulha) que faria sentido usar, seria... um homem. «É mais fácil um rico passar pelo buraco duma agulha, do que entrar no reino dos céus», por exemplo, seria uma frase aceitável. Como seria com a corda. Agora um camelo, tenha santa paciência, eu não compro.
Afixado por: Fernando em fevereiro 4, 2004 01:12 AMTalvez se lessem a frase com mais atenção perceberiam o que esta quer dizer no contexto em que foi dita. Embora a explicação de KAMILOS em vez de KAMELOS seja a que os teólogos hoje comummente aceitam, no entanto há que ter em conta que os evangelhos foram escritos 78 anos depois dos acontecimentos e foram escritos em Grego e não em Aramaico que era a língua de Yeshua ben Yosef (Jesus Cristo). O que este queria demonstrar ao proferir essa frase (mais fácil é fazer passar um camelo pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus) é que a espiritualidade e tudo o que se relacione com a relação do homem com o seu criador, é antagónico ao materialismo e ao apego aos bens materiais. Um homem rico dificilmente se despojará dos seus bens em troca da busca da espiritualidade, por isso mesmo que a palavra usada tivesse sido em referência ao animal, isso poderia ser lido como uma símbologia de que até mesmo um animal tão corpulento como o camelo passaria pelo buraco de uma agulha (algo em princípio bem minúsculo) ao passo que um homem rico dificilmente escolheria a pobreza material e a riqueza espiritual, logo a parábola mesmo mal traduzida tem toda a probridade. Espero que a minha explicação vos elucide. Entretanto o K e o I(i) são letras que não constam nem no alfabeto Aramaico nem no alfabeto Hebraico. Pertencem aos alfabetos Gregos e Latinos. Abraços JC
Afixado por: JC em fevereiro 3, 2004 09:16 PME já pensaram quantas mais leituras erradas não terão sido feitas aquando da tradução para o latim? E quantas, não sendo erradas, foram omitidas conscientemente?
Afixado por: Fernanda em janeiro 31, 2004 04:23 PMQuerida cath, fizeste questão de confirmar?! Viste o filme de propósito?!!
Afixado por: Fernando em janeiro 28, 2004 11:12 PMO "Play it Sam" conhecia, mas desconhecia que o "Elementar, meu caro Watson" não faz parte de nenhum dos livros. Quanto à corda e ao camelo, agulha e a passagem... eles não dizem qual é o tamanho da agulha, pois não ? ;))
Afixado por: João em janeiro 27, 2004 08:55 AMObservacoes assaz incisivas! O "play it again..." eu fiz questao de conferir. Nao foi mesmo falado. So a neurociencia pra explicar isso...
Afixado por: cath em janeiro 27, 2004 04:29 AMSe calhar é uma agulha de acupunctura.
Consta que os palheiros são óptimos locais para um yang exacerbado perfurar (olha a agulha outra vez) energias do tipo fogo a nível do baixo ventre do yin.
O marquês concorda com corda mas concorda concord...ai que me atrapalhei e já não sei o que ia para dizer. Ah! Também não entendo bem aquela outra que diz "é mais fácil encontrar uma agulha num palheiro". Não será antes camelo no palheiro? Sim, porque haveríamos nós de querer encontrar uma agulha num palheiro? Palheiro é lugar de coser? Só os camelos é que cosem no palheiro, não é?
Afixado por: TNT em janeiro 26, 2004 09:48 PM