Cidadão do Mundo


[sexta-feira, 23 de janeiro de 2004]

Mais percentagens

Hoje é dia de greve na função pública. Ao longo do dia ouvimos de cada um dos lados os números de adesão à dita, tão díspares como sempre.
Para aqueles intrigados com a possibilidade de, para um mesmo facto, existirem valores tão diferentes, deixo aqui um pequeno exemplo:


FuncionáriosGrevistasAdesão
Rep. Finanças1010100%
Escola201050%
Hospital1001010%

Analisemos estes dados usando dois métodos possíveis.
  • Tomando em consideração o número de grevistas em relação ao total de funcionários, temos uma adesão de 23%

  • Calculando a média da adesão nos três serviços, temos um valor de 53.3%
  • Qualquer destas análises é correcta mas, será que alguma delas reflecte o impacto da greve? A resposta é negativa.
    Há outros factores que deveriam pesar na análise. Por exemplo:

  • O dia da semana escolhido para a greve.

  • O facto de ser numa sexta-feira tem um impacto completamente diferente num hospital (em que se trabalha todos os dias), ou numa repartição de finanças e numa escola, que fecham ao fim-de-semana.

  • A importância que cada serviço tem na vida dos cidadãos.

  • Os 10% de adesão do hospital poderão ter um impacto maior que os 100% da repartição de finanças, dependendo dos serviços que aderirem, uma vez que é consensual que será mais grave a não realização dum cirurgia marcada, do que o pedido de uma certidão.
    Uma greve numa creche afecta muito mais do que numa biblioteca pública.

  • O peso relativo de cada grupo profissional na mesma empresa.

  • Uma greve de administrativos não tem o mesmo impacto que uma greve de operadores de máquinas.
    Numa escola, a greve dos auxiliares pode implicar o fecho, o mesmo não acontecendo se a greve for só de cozinheiros, por exemplo.

  • A hora a que são recolhidos os dados.

  • As taxas de adesão nos hospitais, por exemplo, são superiores de manhã. Isto deve-se a uma série de factores que não cabem neste post, mas de que falarei mais tarde.

    Estes são apenas alguns dos factores que podem alterar a análise pura e simples dos números, mas que nunca são referidos. Tal como os economistas referidos no post anterior, os políticos também nos enganam com as percentagens.

    Publicado por Fernando @ 21:25
    Comentários

    Ao utilizar-se como denominador o total de funcionários, presume-se que os que estão de férias ou a faltar por doença ou por licensa de gravidez estão a trabalhar e não fariam greve, o que reduz artificialmente a taxa de adesão. Uma forma de apresentar taxas de adesão sempre elevadas é contar os funcionários presentes (não grevistas) e presumir que os restantes fazem todos greve.

    Qualquer dos métodos envieza a medição. Devem ser exluídos do universo (denominador) todos os funcionários ausetes por motivos que não a greve.

    Afixado por: pepe em janeiro 24, 2004 02:32 PM

    Brilhante.

    Afixado por: Rui em janeiro 24, 2004 12:34 AM

    Vou dar um exemplo de manipulação que nós os tios usamos frequentemente: se o desemprego passar de 6 para 7% dizemos que o desemprego aumentou 1 ponto percentual; mas se o desemprego baixar de 7 para 6,5% dizemos que houve uma redução de 7% no desemprego. Aprende-se imensêeeeerrimo com os tios, não é?

    Afixado por: TNT em janeiro 23, 2004 11:46 PM