Cidadão do Mundo


[sábado, 17 de janeiro de 2004]

O país sem futuro que esqueceu o passado

«A língua portuguesa é muito traiçoeira», ouve-se com frequência. Talvez seja verdade mas, mais ou menos traiçoeira, uma língua é também um elemento determinante na identidade dum povo.
Aquilino dizia - em tom provocatório - que a nossa língua é pobre porque tem palavras a mais. Deve ser por isso que a vamos simplificando cada vez mais.
Vem isto a propósito de recentemente ter dado comigo a pensar sobre o uso de tempos verbais e de me ter apercebido que três desses tempos estão em vias de extinção. A saber:

  • Pretérito mais-que-perfeito do indicativo

  • Exceptuando alguns meios rurais, já mal se ouve. O uso de «soubera», «fizera», etc. está moribundo. Só resiste ainda no «quem me dera» e derivados.

  • Condicional

  • Vai sendo progressivamente substituído pelo pretérito imperfeito do indicativo. Usa-se «gostava» em vez de «gostaria», «queria» por «quereria»...

  • Futuro do indicativo

  • Está a cair em desuso e a ser preterido pelo presente do indicativo. Já não se diz «amanhã irei», mas «amanhã vou». E nem sequer há relação alguma com a proximidade ou não do futuro a que nos referimos. Tanto dizemos «logo à noite vemo-nos», como «amanhã almoço mais tarde», como ainda «para o ano faço uma grande viagem».

    Resumindo: esquecemos um passado, usamos outro como condicional e substituímos o futuro pelo presente.
    Sendo a língua um espelho dos seus falantes, querem melhor retrato do que este?

    Publicado por Fernando @ 00:39
    Comentários

    Muito bem visto,sim senhor...

    Afixado por: Valeria Mendez em janeiro 18, 2004 03:11 AM

    Como amante das palavras e da língua portuguesa só tenho uma palavra a dizer: lamento...

    Afixado por: jacky em janeiro 18, 2004 01:07 AM

    Pois é, parabéns pelo judicioso post. Um abraço,Nuno

    Afixado por: Nuno em janeiro 17, 2004 06:23 PM

    V. Ex.cia dar-me-á razão quando ler este meu nobre mas pobre comentário. Soubera eu que V. Ex.cia pretende que comentemos os seus posts no condicional, não me teria coibido de o ter feito anteriormente no passado. É outra música, lá isso é.

    Afixado por: TNT em janeiro 17, 2004 01:58 PM

    Ora aí está mais uma análise brilhante do Fernando sobre a forma como se fala, se escreve e se vive a língua - e portanto - um reflexo do próprio país. Mas é com pena que acredito que a coisa só tende a piorar. Reparai que o Fernando até dá nota das classificações dos tempos verbais! Isso é coisa que hoje nenhum miúdo sabe, ou por outra, saberão alguns, mas contam-se por certo pelos dedos das mãos... já para não falar nos que manifestam interessse pelo assunto.

    Afixado por: pedro guedes em janeiro 17, 2004 01:00 AM