Cidadão do Mundo


[sexta-feira, 09 de janeiro de 2004]

Os kotas

O companheiro de blogosfera Pedro Guedes, no seu Último Reduto, recomenda a leitura dum texto que - considera o Pedro, e bem - deve merecer a nossa reflexão.

O texto refere que cerca de trezentas pessoas falecidas em França, na sequência da última vaga de calor, não tiveram quem as acompanhasse no seu funeral, para lhes prestar a última homenagem, condenando-os assim ao esquecimento e à solidão. Segue com considerações sobre o jaez de tal nação que se está nas tintas para o seu passado e para as suas raízes, e que pretende ainda assim ser um dos faróis da Europa. Entra depois no caminho do manifesto político anti-constituição europeia, criticando a futura dependência de Portugal deste tipo de sociedades.

Ora, apesar de também não me agradar a ideia de uma constituição europeia, acontece que não é por aí. Tomando apenas o exemplo citado, Portugal já é um país dessa índole, onde nada disto é novidade. Também aqui há muitos casos idênticos de funerais de velhos completamente abandonados.
Há anos que sei de histórias de gente que abandona os pais ou outros familiares mais velhos nas urgências hospitalares ou até em esplanadas, apenas para poderem ir de férias sem «a chatice dos velhos».
Isto para já não falar nas antecâmaras da morte que são os lares de terceira idade, eufemismo para designar os milhares de asilos espalhados por este país, onde muitas vezes os nossos velhos são tratados como lixo em condições infra-humanas.

Esta cultura vergonhosa de desprezo pelos velhos - típica das sociedades civilizadas - não é mais que uma das faces da perda de valores a que se tem vindo a assistir nos últimos tempos e que deveriam ser um dos pilares fundamentais da civilização ocidental: o humanismo, a solidariedade, o respeito pelo próximo.
É tempo de reflectir sobre isto porque, como é referido no artigo, «uma sociedade que não respeita os seus velhos, antes os renega, e que os olha como empecilhos em vez de fonte de ensinamento e sabedoria, é, com certeza, uma sociedade alienada e muito doente que tem por arquétipos o materialismo, o egoísmo e o egocentrismo.»

Curiosamente, o respeito pelos mais velhos subsiste ainda nas culturas africanas, asiáticas e indígenas americanas. A expressão em kimbundo (um dos dialectos de Angola) «kota», cujo o significado tão deturpado foi quando da sua assimilação pelo nosso país, significa no original «mais velho», no sentido em que é o mais sábio e aquele a quem se deve respeito por ter, naturalmente, mais experiência na difícil a arte de viver.
Cota - como é grafado em Portugal - é geralmente utilizado como expressão de desdém para com os pais. E é também um exemplo chapado da incorporação adulterada de um vocábulo que não tem paralelo na nossa cultura.

Para mim, os meus pais - e os mais velhos em geral - serão sempre kotas. Cotas, jamais.

Publicado por Fernando @ 13:13
Comentários

Incisivo e erudito. Belissimas fotos.

Afixado por: cath em janeiro 10, 2004 12:25 PM

Perfilho da mesmíssima opinião e, como educador que sou, assisto diariamente à evolução do "respeito" que os jovens nutrem para com os mais velhos. Tenho tido mesmo a impressão que já nem há desrespeito no sentido de ofensa deliberada. O desrespeito advém do facto de os nossos jovens se estarem a "borrifar" para os mais velhos. Não nos esqueçamos, porém, que quem os educa ou não, somos nós.

Afixado por: Henrique em janeiro 10, 2004 07:49 AM

Infelizmente, Pedro, tudo leva a crer que será mesmo uma questão de tempo.

Afixado por: Fernando em janeiro 10, 2004 03:25 AM

Caro fernando,

Óptimo texto. manda para o Diário Digital que talvez eles publiquem... Apesar de tudo, acho que em algumas zonas do "primeiro mundo" essencialmente rurais e agrícolas, ainda se mantém um certo respeito pelos mais velhos e pelos ensinamentos que podem transmitir se não os encharcarem - como é regra - em drogas para acalmar e fazer domir. Mas é certo que é precisamente nessas zonas onde o "progresso" ainda não chegou que o egocentrismo e o egoísmo igualmente ainda não penetraram. Será uma questão de tempo?

Afixado por: pedro guedes em janeiro 9, 2004 10:28 PM

Gotinha, a expressão vem de «dikota», que significa «mais velho». Na verdade, «kota» quer dizer «velho», mas o sentido em que é originalmente usado, é o que eu referi no post.

Afixado por: Fernando em janeiro 9, 2004 04:04 PM

Mais do que uma "chatice" os velhos são uma ameaça para as criaturas que insistem em querer ser gente. A pele enrugada e os cabelos brancos causam-lhes asco, têm nojo e medo da velhice e frequentemente dizem que querem morrer jovens "para não dar trabalho". Este medo da velhice é resultado directo de uma sociedade ôca, onde vale tudo para preservar a juventude e onde as coisas "são" desde que "pareçam ser".

Afixado por: Sónia em janeiro 9, 2004 03:12 PM

Desconhecia a origem de Kota!

Afixado por: Gotinha em janeiro 9, 2004 02:58 PM

Excelente post sobre uma sociedade (a nossa) que teima em esconder os seus seniores. Verdadeiro e incisivo. Parabéns.

Afixado por: João em janeiro 9, 2004 02:53 PM

Deixaste-me sem palavras...

Afixado por: jacky em janeiro 9, 2004 02:30 PM