Cidadão do Mundo


[domingo, 16 de novembro de 2003]

O país sem parapeitos


Era uma vez um país em que as janelas e as varandas eram construídas sem parapeitos. Apesar de morrerem milhares de pessoas, e outros milhares ficarem estropiadas e permanentemente inválidas, por caírem de janelas e varandas, nesse país alguns diziam que os parapeitos não faziam sentido, pois ninguém seria tão tolo ao ponto de se aproximar de janelas e varandas desprotegidas.
Nesse país, apesar de todos terem um amigo que já caíra de uma janela ou de uma varanda, toda a gente continuava a morar em casas construídas sem parapeitos, e achava que os que caíam eram descuidados ou tinham azar.
E mais azar tinham os que morriam porque alguém lhes caía em cima (e não eram poucos).
Nesse país havia associações de cidadãos que tentavam lutar contra esse modelo de construção instituído, mas nem construtores civis, nem agentes imobiliários, se mostravam minimamente interessados em alterar o padrão de construção dos edifícios.
E continuavam a construir-se prédios cada vez maiores, cada vez mais altos. E quanto mais se construía, mais gente morria em consequência de quedas das janelas e das varandas sem parapeitos.

Esta história é absurda, dir-me-ão. Não passa pela cabeça de ninguém construir edifícios sem parapeitos nas janelas e nas varandas. Não faz sentido.
Pois é... Mas este país sem parapeitos não é ficção. Existe e chama-se Portugal.
Todos os dias, cidadãos deste país desafiam a morte, embebedando-se à beira das janelas ou praticando equilibrismo nas varandas. Alguns pensam até que a sua virilidade é directamente proporcional à altura dos edifícios onde praticam tais habilidades.

É preciso dizer: basta!
É preciso construir parapeitos e encher as varandas de floreiras e as janelas de vasos, e tornar este país mais belo.
Para que as flores não sirvam apenas para encher os cemitérios.

Publicado por Fernando @ 04:55
Comentários

Este texto merece ser publicado. Obrigada, Fernando!

Afixado por: Sónia em novembro 17, 2003 03:13 PM

o pior é quando alguém é atirado de propósito para o meio da estrada para ser atropelado. E não tem a ajuda de ninguém. ninguém pára. Pelo contrário: é um corropio de carros de alta cilindrada a passar por cima do home, carago. e enquanto o homem está a ser cilindrado vão surgindo mirones, oportunistas and so on que o MAL dá muito dinheiro.

Afixado por: Cândida Sá em novembro 16, 2003 04:22 PM

Com boa imaginação construiu uma história que ilustra muito bem a nossa realidade. Contudo sem o esforço sentido dos utilizadores e uma eficaz fiscalização, continuaremos a assistir às quedas das pessoas pelas janelas e varandas. A questão fulcral continua a ser “como fazer entender este drama à população”?
Como já tenho escrito vária vezes tudo se resume a uma questão de Educação. Por isso é tão importante que o país invista fortemente neste sector.

Afixado por: vmar em novembro 16, 2003 11:26 AM

O Rui tirou-me as palavras. É um bela alegoria. Parabéns Fernando.

Afixado por: João em novembro 16, 2003 11:23 AM

Que bela alegoria.

Afixado por: Rui em novembro 16, 2003 08:56 AM