Cidadão do Mundo


[terça-feira, 11 de novembro de 2003]

Os números à nossa volta
I - Os coelhos de Fibonacci

No famoso jantar do Bando do Agasalho, prometi ao Rui escrever sobre a relação entre a matemática e as outras ciências, as artes e a natureza.
Este é o primeiro post duma série que pretendo publicar com alguma (ir)regularidade, e que espero desperte alguma curiosidade entre todos os que acham a matemática e os números um bicho de sete cabeças sem interesse nenhum.



O sistema de numeração indo-árabe foi introduzido na Europa basicamente por publicações de livros que demonstravam as vantagens em relação aos sistemas anteriores. O mais influente desses livros foi Liber Abaci (Livro sobre o cálculo) escrito em 1202 por um matemático italiano, Leonardo de Pisa, que ficou conhecido por Fibonacci (filho de Bonacci).
A utilização da álgebra é ilustrada nesse livro com vários exemplos, que procuram demonstrar a vantagem do método algoritmista em relação ao método abacista, em uso na época. Um dos problemas proposto por Fibonacci, tornou-se extraordinariamente famoso:

Quantos casais de coelhos podem ser produzidos a partir de um único casal durante um ano, se cada casal originar um casal em cada mês, o qual se torne fértil a partir do segundo mês?

Subentende-se que não há mortes durante esse ano e que cada casal é um macho e uma fêmea.
A resposta é dada pela sucessão numérica: 1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21, 34, 55, 89, 144.
Ora, verifica-se que, exceptuando os dois primeiros, cada número resulta da soma dos dois anteriores. Podemos definir esta lista como uma sucessão infinita de números (esqueçamos os coelhos a partir de agora), na qual o termo de ordem n, a que chamamos Fn, não é mais do que a soma dos dois termos precedentes Fn-1 e Fn-2.

Um aspecto interessante desta sucessão, tem a ver com o facto de os números mais pequenos aparecerem espalhados pela natureza. Plantas, insectos, flores, são fontes inesgotáveis de números de Fibonacci. Esta particularidade será focada mais tarde.

Voltando à questão puramente matemática. Os números de Fibonacci crescem muito rapidamente.
Por exemplo, F25 = 70 025, F30 = 832 040 e F100 = 354 224 848 179 261 915 075.
Mas, à medida que vão crescendo, vai-se formando um padrão inesperadamente simples. Para percebermos esse padrão, vamos dividir cada número de Fibonacci pelo número seguinte.

1/1 = 1
1/2 = 0,5
2/3 = 0,666 666
3/5 = 0,6
5/8 = 0,625
8/13 = 0,615 385
13/21 = 0,619 048
21/34 = 0,617 647
34/55 = 0,618 182
55/89 = 0,617 978
89/144 = 0,618 056
144/233 = 0,618 026
.............................
Nota-se que, à medida que aumentam os números de Fibonacci, a razão entre eles tende a variar cada vez menos. De facto, estas razões de Fibonacci convergem para o número (√5-1)/2 = 0,618 033 988 749 894 848 204 586 834 366 (a minha calculadora não dá mais casas decimais).
A este número irracional (que não pode ser expresso como uma razão de dois números inteiros) chama-se razão de ouro e parece ser a base matemática de tudo, desde a arquitectura à fotografia, passando pela pintura, pela música, etc.

(Continua aqui)

Publicado por Fernando @ 03:42
Comentários

Prezado Fernando,

Interessantíssimo o seu post. Será que podemos fazer uma correlação entre a sequencia de Fibonacci e a teoria de filas? Fico pensando em como fazer um simulador de filas "fibonacci", e se ele pode ser validado.

Um forte abraço brasileiro.

Carlos Henrique

Afixado por: Carlos Henrique Calazans em outubro 23, 2004 02:21 PM

esse é o tema da minha monografia ...
preciso de coisas novas sobre fibonacci.
c sabe de alguma?
obrigado

Afixado por: rodrigo em outubro 13, 2004 06:05 PM

Tema apaixonante

Afixado por: Alexandra em maio 5, 2004 03:18 PM

muito boa apresentaçao!!sim senhor!!!!
boas ideias, comentarios, isto tem tudo!!!!

Afixado por: maria em dezembro 18, 2003 08:34 PM

Também pode provar-se que a sucessão de termo geral u(n)= f(n)/f(n-1) (em que f(n) é a sucessão de Fibonacci) tem por limite o número de ouro, ou seja,
lim u(n) = (1 + *5)/2

em que asterisco representa, aqui, a raiz quadrada.

Afixado por: Cecília em novembro 23, 2003 05:22 PM

Jack, tem calma pá. Estás a estragar o meu próximo post sobre o assunto. Não levantes já o véu. :-)

Afixado por: Fernando em novembro 13, 2003 11:17 PM

Só uma achega: A famosa sequência de Fibonnaci também se estende aos domínios da Natureza. O Nautilus, um animal considerado um fóssil vivo (velhinho como os dinaussaurios mas que ainda ánda aí para as curvas), tem um concha em forma de espiral com compartimentos, que utiliza para flutuar. A piada é que os compartimentos existem segundo os valores dos termos da sequência de Fibonaci: 1, 1, 2, 3, 5, 8,...
Ah! e o mesmo acontece com o ananás e o alho-francês por exemplo (e com grante parte dos frutos em espiral). O ananás têm sempre o numero de espirais para a direita como um valor de Fibonacci e para a esquerda o valor imediatamente depois ou anterior... É engraçado.

Afixado por: Jack em novembro 13, 2003 10:09 PM

Isso Agora... Obrigado pelo incentivo, mas serviço público parece-me exagerado.
Não conheço "o diabo dos números", mas vou procurar.


Obrigado Rui. Ainda bem que gostaste.
Muito de "Os números à nossa volta" deve-se a ti.

Afixado por: Fernando em novembro 12, 2003 12:28 AM

Querido Fernando: Excelente.

Afixado por: Rui em novembro 11, 2003 11:27 PM

Se quiseres ser mais regular nestes postes podes utilizar como cábula "O diabo dos números". O engraçado é que se recomendares simplesmente o livro ninguém o lê, mas assim às post(inhas) todos vão achar engraçado e perceber com relativa facilidade. Isto é serviço público. Parabéns.

Afixado por: Isso agora... em novembro 11, 2003 12:31 PM

Caro eleitor (presumo, com um cidadão do mundo nunca se sabe).
Faça favor de continuar.
Vote em mim
Muito Obrigado
O Primeiro Ministro

Afixado por: Primeiro Ministro em novembro 11, 2003 10:09 AM

Aqui está um post deveras interessante. Fico à espera da continuação deste tema.

Afixado por: João em novembro 11, 2003 09:11 AM