
A Cristina é enfermeira e lida diariamente com doentes oncológicos. Durante alguns anos, trabalhou num serviço hospitalar de hematologia e transplantes de medula óssea.
Por isso, para assinalar esta louvável iniciativa da Ana - um dia de solidariedade na blogosfera para lembrar a leucemia - resolvi pedir-lhe um texto sobre esta doença (cobarde, como muito bem lhe chamou o Nuno).
A Cristina disse-me que tinha já vários textos escritos sobre o assunto. Histórias verídicas, testemunhos pessoais, etc. Achei óptimo.
Só que, quando os li, confesso que hesitei em publicá-los. São memórias de situações íntimas e dolorosas que a marcaram no contacto com doentes leucémicos.
Achei tudo demasiado negro e pessimista e esse não era o espírito da coisa.
Só que depois pensei melhor. Não terá este lado desconhecido do acompanhamento de doentes terminais, por vezes tão triste e chocante, o condão de despertar mais as consciências, do que histórias melífluas e delico-doces? Talvez tenha.
Portanto, aqui vai uma história real. O nome é, obviamente, fictício.
Nesse dia fiz dois turnos. Entrei às 15 horas e só sai no outro dia às oito e meia da manhã. A doente estava em estado terminal e recordo que a sua situação clínica se deteriorou rapidamente. Lembro-me da dor no seu olhar, pelo abandono a que estava votada pelo marido e pelos restantes familiares. Dor por não poder ver novamente os filhos, não poder despedir-se deles.
O que mais me tocou e me custou foi isto. Não lhe ter sido permitido despedir-se dos filhos.
Nunca esqueci esta doente. Já lá vão muitos anos, mas ainda hoje me lembro dela com nitidez. Parece que a estou a ver, ali deitada na cama 13, indefesa, só, abandonada pela família, sem lhe ser concedido o direito a morrer em paz.
À medida que o seu estado se foi agravando, lembro-me que se agarrou à minha mão e me disse: "...Tenho medo, tenho medo de morrer, medo de deixar os meus filhos... O que será deles?..."
Faleceu à meia-noite e meia. Estive sempre ao lado dela, de mão dada, sentada numa cadeira ao lado da cama, com a cortina semi-corrida. Fui falando com ela, tentando confortá-la, tentando acalmar a sua revolta e a sua mágoa. Mas sinto que não o consegui. Nunca consegui esquecer o seu olhar magoado. Abandonado...
Quando penso nela, ainda hoje sinto impotência e revolta pelo que na altura achei, e continuo a achar, que foi uma falta de respeito da família e do marido. Uma enorme falta de respeito por uma pessoa.
»Só mais uma coisa. A Cristina é minha mulher. Conhecemo-nos há vinte anos e, pela primeira vez, fiquei comovido com algo escrito por ela.
Hoje é, de facto, um dia muito especial.
Querida Ana,
Cada vez estou mais convencido que a política, mais que peanuts, é mesmo uma grandessíssima merda.
Um beijo e cumprimentos ao Rui.
Thursday, 10.16.2003 @ 3:15 AM
Querido Fernando,
Nestas alturas é que vemos que a politica e afins são peanuts, ao pé disto.
O meu muito obrigada.
bejinhos
ana
Wednesday, 10.15.2003 @ 11:47 PM