Cidadão do Mundo


[quarta-feira, 15 de outubro de 2003]

Um dia muito especial

A Cristina é enfermeira e lida diariamente com doentes oncológicos. Durante alguns anos, trabalhou num serviço hospitalar de hematologia e transplantes de medula óssea.
Por isso, para assinalar esta louvável iniciativa da Ana - um dia de solidariedade na blogosfera para lembrar a leucemia - resolvi pedir-lhe um texto sobre esta doença (cobarde, como muito bem lhe chamou o Nuno).

A Cristina disse-me que tinha já vários textos escritos sobre o assunto. Histórias verídicas, testemunhos pessoais, etc. Achei óptimo.
Só que, quando os li, confesso que hesitei em publicá-los. São memórias de situações íntimas e dolorosas que a marcaram no contacto com doentes leucémicos.
Achei tudo demasiado negro e pessimista e esse não era o espírito da coisa.

Só que depois pensei melhor. Não terá este lado desconhecido do acompanhamento de doentes terminais, por vezes tão triste e chocante, o condão de despertar mais as consciências, do que histórias melífluas e delico-doces? Talvez tenha.
Portanto, aqui vai uma história real. O nome é, obviamente, fictício.


«Lembro-me da D. Carolina que passou a tarde a aguardar a visita de algum familiar. Um qualquer... Dizia que o marido já não a vinha visitar, porque estava com a outra mulher. Não veio vê-la, nem trouxe os filhos para a verem. Ela estava ansiosa e revoltada. Revoltada com a doença que a mantinha aprisionada a uma cama de hospital, que não a deixava estar com os filhos.

Nesse dia fiz dois turnos. Entrei às 15 horas e só sai no outro dia às oito e meia da manhã. A doente estava em estado terminal e recordo que a sua situação clínica se deteriorou rapidamente. Lembro-me da dor no seu olhar, pelo abandono a que estava votada pelo marido e pelos restantes familiares. Dor por não poder ver novamente os filhos, não poder despedir-se deles.
O que mais me tocou e me custou foi isto. Não lhe ter sido permitido despedir-se dos filhos.

Nunca esqueci esta doente. Já lá vão muitos anos, mas ainda hoje me lembro dela com nitidez. Parece que a estou a ver, ali deitada na cama 13, indefesa, só, abandonada pela família, sem lhe ser concedido o direito a morrer em paz.

À medida que o seu estado se foi agravando, lembro-me que se agarrou à minha mão e me disse: "...Tenho medo, tenho medo de morrer, medo de deixar os meus filhos... O que será deles?..."
Faleceu à meia-noite e meia. Estive sempre ao lado dela, de mão dada, sentada numa cadeira ao lado da cama, com a cortina semi-corrida. Fui falando com ela, tentando confortá-la, tentando acalmar a sua revolta e a sua mágoa. Mas sinto que não o consegui. Nunca consegui esquecer o seu olhar magoado. Abandonado...

Quando penso nela, ainda hoje sinto impotência e revolta pelo que na altura achei, e continuo a achar, que foi uma falta de respeito da família e do marido. Uma enorme falta de respeito por uma pessoa.»



Respeito, meus amigos, respeito pelo próximo, é o primeiro passo para construirmos um mundo melhor.
E esta iniciativa é, sem dúvida, uma demonstração disso mesmo.

Só mais uma coisa. A Cristina é minha mulher. Conhecemo-nos há vinte anos e, pela primeira vez, fiquei comovido com algo escrito por ela.
Hoje é, de facto, um dia muito especial.

Publicado por Fernando @ 15:45
Comentários

Querida Ana,

Cada vez estou mais convencido que a política, mais que peanuts, é mesmo uma grandessíssima merda.

Um beijo e cumprimentos ao Rui.

Thursday, 10.16.2003 @ 3:15 AM

Afixado por: Fernando em novembro 3, 2003 06:12 PM

Querido Fernando,

Nestas alturas é que vemos que a politica e afins são peanuts, ao pé disto.
O meu muito obrigada.
bejinhos
ana

Wednesday, 10.15.2003 @ 11:47 PM

Afixado por: Ana Maria Anes em novembro 3, 2003 06:11 PM