Cidadão do Mundo


[domingo, 28 de setembro de 2003]

Quo vadis?

Cântico Negro

«Vem por aqui» - dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: «vem por aqui»!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
-Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: «vem por aqui»?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca princípio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: «vem por aqui»!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um atomo a mais que se animou...
Não se por onde vou,
Não sei para onde vou,
-Sei que não vou por aí!

José Régio, Poemas de Deus e do Diabo

Publicado por Fernando @ 14:47
Comentários

Ana Paula,
muito obrigado pela chamada de atenção. Devo confessar que não escrevi o poema. Fiz um "copy/paste" de outra página. Tive, no entanto, o cuidado de o comparar cuidadosamente com a mais recente versão que adquiri: «Não vou por aí!», Antologia Poética organizada por Isabel Cadete Novais, edições quasi, 3ª edição.
Apesar de ter corrigido vários erros, estes dois escaparam.

Penitencio-me publicamente pela minha preguiça que lamentalvelmente me levou à deturpação das palavras do poeta.

A correcção imediata impõe-se.

Saturday, 10.04.2003 @ 12:18 AM

Afixado por: Fernando em novembro 3, 2003 05:53 PM

Percorrendo a Blogoesfera, cheguei por acaso ao Cidadão do Mundo. E é sempre com grande satisfação que encontro o Cântigo Negro, de J. Régio (poema q declamo do fundo da alma desde há 10 anos, sempre que alguém me diz "vem por aqui"). No texto aqui colocado notei 2 pequenos erros/omissões (em relação à 4ª Edição de Poemas de Deus e do Diabo, que é a que eu tenho): "Redemoinhar aos ventos" em vez de "Redominhar aos ventos", e "Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós" em vez de "Corre, nas veias, sangue velho dos avós". Cumprimentos.

Friday, 10.03.2003 @ 7:37 PM

Afixado por: Ana Paula em novembro 3, 2003 05:52 PM

muito obrigado pelo link...com prazer retribuo!

Tuesday, 09.30.2003 @ 1:25 AM

Afixado por: Nuno em novembro 3, 2003 05:52 PM