O meu avô era comerciante. Tinha uma mercearia, uma adega, um celeiro, animais e outras coisas mais...
Era um homem que se levantava sempre às cinco da manhã e se deitava já depois da meia-noite. Trabalhava todos os dias do ano, nunca tinha férias e nunca parava de trabalhar por mais que dois ou três dias seguidos - geralmente para ir à sede de concelho ou para vir à capital tratar de negócios ou papeladas. A coisa que mais lhe custava era "fechar a loja". Por isso, muitas vezes a minha avó ficava sozinha a orientar o negócio, enquanto ele se ausentava.
O meu avô era um homem da província, rijo e rude, produto inevitável da vida dura que levara. E detestava "modernices"...
Uma das que mais o incomodava, era eu e a minha irmã tratarmos os pais por «tu».
Para um homem que não admitia ser tratado por «você», e para quem «vocemecê» é que era educação, era natural a sua irritação.
Escusado será dizer que eu evitava tratar os meus pais por «tu» à frente dele, pois habilitar-me-ia na hora a uma valente galheta.
- Se o teu pai não te educa, educo-te eu!...
Ora, tinha eu os meus 11 ou 12 anos, quando um dia fui apanhado em flagrante delito. Lá vem chapada - pensei.
Enganei-me. O meu avô sentou-se num dos bancos de madeira da cozinha, puxou-me para junto dele e disse-me calma, mas firmemente:
- Ouve lá! É isso que te ensinam na escola?
- Isso, o quê? - Eu tremia, antecipando a inevitável chapada.
- Isso... Tratares assim os teus pais... Por «tu».
- Não avô. Na escola ensinam-me a tratar por «tu» os meus amigos.
- Mas isso é que está certo. Os amigos é que se tratam por «tu». - O diálogo decorria sereno e eu só pensava que já estava safo. Foi então que resolvi arriscar.
- Mas avô...
- O quê?!
- Os meus pais não são os meus melhores amigos? - Ah ah, ganhei-te, pensei.
O meu avô levantou-se de supetão, olhou-me de cima a baixo, leu-me na cara o indisfarçável ar de satisfação... E aplicou-me um dos maiores chapadões de que tenho memória.
Descobri nesse dia que a ironia, além de uma figura de estilo, é também uma arma.
Publicado por Fernando @ 13:48Talvez esteja. Mas para trás de quê?!
Sunday, 09.14.2003 @ 4:56 PM
Afixado por: Fernando em novembro 3, 2003 05:35 PMacorda para o mundo. Estas a ficar para tras.
Sunday, 09.14.2003 @ 9:03 AM