Se, por um lado, me sentia há já algum tempo impelido a criar um blogue; por outro, algo cá dentro me demovia da ideia.
A possibilidade de poder publicar o que me apetecer sem restrições, é um desafio a que eu dificilmente poderia resistir.
Mas quando me apercebi da existência dos blogues, já existia toda esta espécie de moda à sua volta, o que me fez refrear o ímpeto de o criar.
Sou averso a modas, pronto.
Mas uma coisa aconteceu que me fez repensar tudo isto. A morte de um amigo.
Não era um amigo qualquer. Era, simplesmente, o melhor amigo que se pode ter.
Relembrando as inúmeras vezes que estivemos juntos em cerca de vinte anos, apercebi-me de que a maior parte dos melhores momentos da minha vida foram passados com ele (ou por causa dele).
Dramaturgo com várias peças premiadas, encenador, escritor, democrata de fortes convicções políticas e morais, era um homem que prezava a lealdade. E lealdade é a qualidade que define um amigo e que se espera de um amigo.
As conversas prolongadas por horas e horas sobre tudo e mais alguma coisa, as jantaradas, as idas ao teatro, as discussões... Que nunca mais teremos...
Pela primeira vez, a morte de alguém próximo deixou-me completamente destroçado e revoltado. Mais do que com parentes. Vamo-nos mentalizando ao longo da vida que, mais cedo ou mais tarde, os nossos avós, os nossos pais ou os nossos tios morrerão, mas nunca nos preparamos para a morte dos amigos.
Não pensem, porém, que a criação deste blogue foi apenas uma cibernética tentativa de superar a sensação de solidão que me invadiu.
O que me levou a criá-lo, foi a necessidade premente de vos dar a conhecer este, como eu, cidadão do mundo.
Fernando Augusto, meu amigo, vamos sentir a tua falta...

Fernando Augusto (1947-2003)
Transcrevo a seguir o poema de Herberto Helder, cujo o título pedi emprestado para este post.
Aos amigos
Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
-Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.
Voltarei com assuntos mais alegres.
Até breve.
EU NAO ESQUEÇO O AMIGO QUE SE FOI.
ELE ESTA PROXIMO DE TI
QUANDO OLHARES EM TEUS LIVROS SEUS POEMAS
E QUANDO PENSARES EXAUSTIVAMENTE NELE
A CORTINA DE FUMAÇA QUE SEPARA OS MUNDOS TRANSITORIAIS
ABRIRA DA ETERNA IDADE, SUA PASSAGEM.
Thursday, 09.11.2003 @ 8:27 PM
Afixado por: NONATO em novembro 3, 2003 05:31 PMUm Amigo é algo em vias de extinção. Um Homem Leal é algo que já pouco se faz. Um Abraço em homenagem a esse Amigo que partiu.
Saturday, 09.06.2003 @ 1:28 AM
Afixado por: José Carlos Soares em novembro 3, 2003 05:31 PM